Um levantamento realizado em setembro de 2020 com 1.485 profissionais do setor financeiro do Reino Unido mostrou que mulheres se sentem menos seguras para reconhecer falhas quando a maioria dos colegas são homens. O estudo, conduzido por pesquisadoras da London School of Economics, trouxe dados que apontam para diferenças de percepção entre gêneros em ambientes de trabalho predominantemente masculinos.
Contexto da pesquisa e principais achados
A amostra contou com 1.205 mulheres (81%) e 280 homens (19%). Os participantes foram convidados a imaginar que haviam cometido um erro de consequência moderada, como perder um prazo menor ou gerar retrabalho para a equipe. Em seguida, avaliaram, de 1 a 7, o conforto para admitir o erro, a expectativa de penalização e a visão do equívoco como oportunidade de aprendizado.
Os resultados brutos revelaram que os homens deram nota média 5,85 ao conforto de admitir erros, enquanto as mulheres marcaram 5,52. Na mesma escala, a percepção de erro como aprendizado ficou em 4,66 para os homens e 4,42 para as mulheres.
Entretanto, a diferença se ampliou quando a proporção de homens no ambiente ultrapassou 75%. Nesses locais, as mulheres registraram média de conforto 5,46, contra 5,94 dos homens. Quanto à oportunidade de aprendizado, as mulheres marcaram 4,20, enquanto os homens chegaram a 4,54.
Impactos na saúde mental e no desempenho
Especialistas apontam que ambientes excessivamente punitivos podem gerar insegurança, levando profissionais a silenciar ideias, propostas e críticas. A psicóloga Marli Donizeti Oliveira destaca que a falta de espaço para errar desencadeia um efeito de “encolhimento”, prejudicando a saúde mental e a sensação de pertencimento ao grupo.
Quando os colaboradores temem o julgamento, eles tendem a evitar riscos, reduzir a criatividade e limitar a colaboração. Esse comportamento pode se transformar em burnout, diminuição da produtividade e aumento da rotatividade.
Além disso, a pesquisa sugeriu que a percepção de penalização não variou tanto entre os gêneros, mas o conforto para admitir falhas foi claramente afetado pela composição de gênero do time.
Como as empresas podem criar um ambiente mais inclusivo
Para reverter esse quadro, as organizações precisam adotar práticas que incentivem a transparência e a aprendizagem a partir dos erros, independentemente do sexo dos colaboradores. Algumas ações efetivas incluem:
- Treinamentos de viés inconsciente: capacitar gestores a reconhecer e mitigar preconceitos que afetam a avaliação de desempenho.
- Políticas de feedback construtivo: estabelecer canais seguros onde erros são discutidos como oportunidades de melhoria.
- Mentoria cruzada: promover relacionamentos entre profissionais de diferentes gêneros e níveis hierárquicos para ampliar a confiança.
- Comunicação clara sobre consequências: definir, de forma transparente, quais tipos de erros geram penalizações e quais são tratados como aprendizado.
Ao implementar essas medidas, as empresas não apenas aumentam o bem‑estar dos funcionários, mas também potencializam a inovação e a eficiência operacional.
Conclusões e recomendações para o futuro
Os dados apontam que a presença masculina em excesso nos ambientes de trabalho pode criar barreiras psicológicas para as mulheres admitirem erros. Essa realidade tem implicações diretas na saúde mental, na cultura organizacional e na capacidade de aprendizagem coletiva.
É fundamental que líderes reconheçam esses padrões e trabalhem proativamente para equilibrar a representação de gênero, ao mesmo tempo em que cultivam uma cultura que celebra o erro como parte natural do desenvolvimento profissional.
Futuras pesquisas podem ampliar o escopo, investigando outros setores e países, bem como avaliando intervenções específicas que visam reduzir a diferença de conforto entre homens e mulheres ao admitir falhas.








