O agronegócio brasileiro, que movimenta bilhões de reais e emprega milhões de pessoas, chega ao fim de 2026 diante de um cenário de endividamento elevado, crédito caro e vulnerabilidade climática. A nova lei 15.526/2026, publicada no Diário Oficial em 30 de setembro, traz mudanças regulatórias, mas especialistas alertam que os problemas estruturais exigirão ações contínuas do próximo presidente.
Financiamento e seguro rural: custos que sufocam o investimento
Segundo Felippe Serigati, da Fundação Getulio Vargas (FGV), o principal gargalo está nos juros altos, reflexo do endividamento dos produtores e do aumento de pedidos de recuperação judicial. Os bancos, mais seletivos, reduzem a oferta de crédito, gerando um efeito em cadeia que retarda investimentos antes mesmo da produção.
Com apenas 3% da produção agropecuária coberta por seguro rural, o risco de perdas por eventos climáticos extremos se mantém elevado. A lei 15.526/2026 cria o Fundo de Catástrofe e torna obrigatória a subvenção ao prêmio do seguro, medida vista como proteção contra cortes orçamentários.
- Juros elevados devido à taxa Selic alta;
- Seleção rigorosa dos bancos por risco de inadimplência;
- Baixa cobertura de seguro, dificultando a recuperação de perdas.
Serigati enfatiza que a solução passa por ajuste entre credores e devedores: os primeiros precisam de tempo para reequilibrar suas carteiras, enquanto os produtores devem organizar melhor suas contas para demonstrar capacidade de pagamento.
Dependência de insumos importados: fertilizantes e maquinário
O Brasil importa cerca de 80% dos fertilizantes químicos que utiliza, concentrando a compra em países afetados por conflitos, como os fornecedores do Estreito de Ormuz. Essa dependência coloca o setor vulnerável a interrupções nas rotas comerciais.
O Plano Nacional de Fertilizantes, já em vigor, tem objetivo de reduzir essa vulnerabilidade, mas seus resultados são de longo prazo, exigindo investimentos em exploração de potássio, fósforo e nitrogênio no território nacional.
Enquanto o plano se consolida, especialistas recomendam a diversificação de fornecedores e o estímulo à produção nacional de fertilizantes, bem como o aumento da fabricação de maquinários agrícolas no Brasil, para diminuir a exposição a choques externos.
- Importação de 80% dos adubos químicos;
- Conflitos internacionais que afetam rotas de abastecimento;
- Necessidade de fontes domésticas de potássio, fósforo e nitrogênio.
Infraestrutura e acesso a mercados: barreiras que limitam a expansão
Problemas logísticos, como estradas em más condições, portos congestionados e falta de integração entre modais de transporte, aumentam os custos de escoamento da produção. Essa ineficiência reduz a competitividade do agronegócio brasileiro nos mercados internacionais.
A Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) propõe cinco frentes de políticas públicas: financiamento mais barato, seguro rural ampliado, redução da dependência de insumos importados, melhoria da infraestrutura e facilitação de acordos comerciais.
Entretanto, especialistas apontam que algumas dessas frentes demandam esforços coordenados entre governo, iniciativa privada e organismos internacionais, e não podem ser concluídas em um único mandato presidencial.
Para avançar, é imprescindível que o futuro presidente priorize projetos de infraestrutura de longo prazo, como a modernização de rodovias estratégicas, a ampliação de terminais portuários e a digitalização da cadeia logística, garantindo maior eficiência e menor custo para o produtor.








