A Organização Mundial da Saúde divulgou nesta quarta‑feira (7) um novo guia que recomenda dieta balanceada e atividade física como tratamento prioritário para crianças obesas, ao invés de medicamentos ou cirurgias.
Diretrizes principais para crianças menores de 10 anos
Para a faixa etária abaixo de dez anos, a OMS exclui o uso de fármacos, injeções de perda de peso e procedimentos bariátricos. A orientação centraliza‑se em alimentação saudável, prática regular de exercícios e acompanhamento comportamental estruturado.
Os profissionais de saúde devem avaliar o histórico alimentar, incentivar a ingestão de frutas, legumes e cereais integrais, e reduzir o consumo de bebidas açucaradas e alimentos ultraprocessados.
Além disso, a organização destaca a importância de envolver a família no processo, criando ambientes domésticos que favoreçam escolhas nutritivas e oportunidades de movimento.
- Planejar refeições com variedade de grupos alimentares;
- Estabelecer rotinas de atividade física de pelo menos 60 minutos diários;
- Monitorar o peso e a altura em consultas regulares;
- Oferecer apoio psicológico para lidar com emoções relacionadas à alimentação.
Abordagens para adolescentes de 10 a 19 anos
Para jovens de dez a dezenove anos, a OMS permite a consideração de medicamentos para perda de peso, mas apenas após falha comprovada de intervenções não farmacológicas.
Os fármacos só podem ser prescritos sob supervisão rigorosa, com acompanhamento de efeitos colaterais e avaliação de maturidade física e mental.
Quando a obesidade for grave e resistente, a cirurgia bariátrica pode ser avaliada, desde que o adolescente tenha completado ao menos seis meses de tratamento conservador sem sucesso.
Em todos os casos, a ênfase permanece na mudança de comportamento sustentável, com apoio multidisciplinar envolvendo nutricionistas, educadores físicos e psicólogos.
Impactos psicológicos e papel da tecnologia
Os especialistas ressaltam que a saúde mental é parte integrante do tratamento da obesidade. Ansiedade, depressão e baixa autoestima podem intensificar hábitos alimentares inadequados e o sedentarismo.
O estigma e o bullying escolar criam um ciclo de isolamento que agrava o quadro clínico e dificulta a adesão às intervenções.
Para romper esse ciclo, a OMS recomenda o uso de tecnologias digitais que incentivem a movimentação, como aplicativos de monitoramento de passos, jogos ativos e plataformas que recompensam a prática regular de exercícios.
Essas ferramentas devem ser integradas a programas educativos que promovam a autorregulação emocional e o desenvolvimento de habilidades de enfrentamento.
- Aplicativos de contagem de passos e metas diárias;
- Jogos interativos que exigem movimento corporal;
- Plataformas de apoio entre pares para troca de experiências;
- Recursos de mindfulness e controle de estresse.
Os dados do UNICEF revelam que a obesidade já superou o baixo peso como principal problema nutricional entre crianças e adolescentes globalmente. Em 2024, cerca de 170 milhões de jovens entre 5 e 19 anos viviam com excesso de peso.
Desses, 70 milhões eram crianças de 5 a 9 anos e 100 milhões adolescentes de 10 a 19 anos. A prevalência quadruplicou desde 1990, passando de 2 % para 8 % da população jovem.
No Brasil, os números são alarmantes: 15,9 % dos menores de 5 anos e 31,7 % das crianças entre 5 e 9 anos apresentavam sobrepeso, segundo o Ministério da Saúde em 2020.
A Anvisa autorizou o uso de canetas emagrecedoras – como Mounjaro e Ozempic – apenas para pacientes diabéticos a partir de dez anos, proibindo qualquer aplicação estética.
A Sociedade Brasileira de Pediatria alerta que o uso indiscriminado desses medicamentos pode gerar déficits de crescimento, desidratação, perda de massa muscular, pancreatite aguda e complicações na vesícula.
Além dos riscos físicos, o uso estético pode desencadear transtornos alimentares, como anorexia e bulimia, bem como ansiedade e depressão relacionadas à imagem corporal.
Portanto, a mensagem central da OMS é clara: o caminho mais seguro e eficaz para combater a obesidade infantil parte da alimentação equilibrada, da atividade física regular e do suporte comportamental, não de intervenções farmacológicas prematuras.
Profissionais de saúde, educadores e famílias são convidados a criar ambientes que facilitem escolhas saudáveis, promovam o movimento diário e fortaleçam a saúde mental dos jovens.
Ao adotar essas estratégias, espera‑se reduzir a incidência de obesidade, melhorar a qualidade de vida das crianças e adolescentes e evitar complicações futuras, como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e problemas ortopédicos.
O guia da OMS está disponível publicamente e deve servir de referência para políticas públicas, programas escolares e iniciativas comunitárias em todo o mundo.








