A retinopatia diabética afeta milhões de brasileiros e, em 2023, o Ministério da Saúde reconheceu a necessidade urgente de ampliar o acesso a tratamentos avançados. O diagnóstico precoce e a intervenção oportuna são fundamentais para evitar a perda irreversível da visão.
Impacto econômico da doença ocular
Os números revelam a dimensão do problema: cerca de 26% das pessoas com diabetes desenvolvem alterações na retina, e 5% evoluem para formas graves que comprometem a visão. Essa prevalência gera um peso econômico significativo para o país.
Em 2021, os custos diretos e indiretos do diabetes totalizaram US$ 42,9 bilhões. Desses, US$ 15,67 bilhões foram atribuídos ao impacto social, incluindo absenteísmo e incapacidade laboral. Quando a complicação ocular se manifesta como edema macular diabético, 92% desse impacto decorre da queda de produtividade.
- Gasto direto anual antes da complicação: US$ 176.
- Gasto no segundo ano, após a complicação: US$ 5.172.
- Valor médio de tratamento severo em seis meses: até R$ 15.000.
No Sistema Único de Saúde (SUS), foram destinados US$ 47,3 milhões em 2014 apenas para procedimentos oftalmológicos ligados ao diabetes. Esses números reforçam a necessidade de estratégias de prevenção que reduzam despesas hospitalares e mantenham a força de trabalho produtiva.
Desafios no diagnóstico precoce
Embora a retinopatia seja inicialmente assintomática, a falta de rastreamento regular impede a identificação precoce. Muitos pacientes só procuram o oftalmologista após a ocorrência de edema ou hemorragia, quando as opções de tratamento já são mais complexas.
Os protocolos clínicos vigentes não são atualizados desde 2021, o que cria lacunas na orientação dos profissionais de saúde. A ausência de diretrizes claras dificulta a padronização de exames de fundo de olho e a definição de intervalos de acompanhamento.
Para melhorar o cenário, recomenda‑se:
- Implementação de campanhas de conscientização sobre a importância do exame anual de retina.
- Integração de exames de imagem de alta resolução nos serviços de atenção primária.
- Capacitação contínua de médicos e técnicos em diagnóstico de retinopatia.
Essas ações podem reduzir a taxa de diagnóstico tardio e, consequentemente, os custos associados ao tratamento avançado.
Avanços terapêuticos e políticas públicas
O SUS já fornece anti‑VEGF para controlar a progressão da doença, mas entre 30% e 40% dos pacientes apresentam resposta insuficiente. Nesses casos, os corticosteroides intravítreos, como o implante biodegradável de dexametasona, surgem como alternativa eficaz.
Em outubro de 2023, a Conitec estimou que a incorporação desse implante geraria uma economia de R$ 16,2 milhões em cinco anos, ao evitar procedimentos cirúrgicos mais caros e reduzir a necessidade de visitas frequentes ao oftalmologista.
Entretanto, transformar a decisão em acesso real ainda enfrenta barreiras burocráticas e logísticas. A falta de treinamento de profissionais para a aplicação do implante e a limitada disponibilidade nas unidades de saúde são obstáculos que precisam ser superados.
Perspectivas para o futuro
Preservar a visão de pacientes diabéticos é mais que um objetivo clínico; trata‑se de garantir a sustentabilidade do sistema de saúde e a qualidade de vida da população ativa. A atualização dos protocolos, o investimento em tecnologia de diagnóstico e a expansão do acesso a terapias inovadoras são passos essenciais.
Além disso, políticas de prevenção que incluam controle glicêmico rigoroso, alimentação saudável e prática regular de atividade física podem diminuir a incidência de retinopatia. A combinação de medidas preventivas e terapêuticas cria um ciclo virtuoso que reduz custos e melhora indicadores de saúde.
Em síntese, a luta contra a perda de visão decorrente do diabetes exige ação coordenada entre governo, profissionais de saúde e sociedade. Apenas assim será possível transformar as cifras invisíveis em resultados concretos para milhões de brasileiros.








