Um novo comprimido oral à base de GLP-1, desenvolvido pela empresa responsável pelo Mounjaro, mostrou que não compromete a saúde do coração em pacientes com diabetes tipo 2. Os resultados foram divulgados em maio de 2024 durante o congresso da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes, realizado em Milão.
Resultados do estudo ACHIEVE-4
O ensaio clínico, intitulado ACHIEVE-4, recrutou 2.749 adultos com diabetes tipo 2 e sobrepeso, dos quais 86% já apresentavam doença cardiovascular estabelecida e mais de um terço tinham doença renal crônica. Os participantes foram distribuídos em dois grupos: metade recebeu o comprimido diário de orforglipron e a outra metade recebeu a insulina glargina, administrada por injeção subcutânea.
Após aproximadamente dois anos de acompanhamento, a taxa de eventos cardiovasculares graves – como infarto, AVC, morte cardiovascular e internação por angina instável – foi praticamente idêntica entre os grupos. O evento ocorreu em 4,2% dos pacientes que usaram orforglipron, contra 5,0% dos que permaneceram na insulina, indicando que o novo comprimido não aumenta o risco cardíaco.
- Eventos graves: 4,2% (orforglipron) vs 5,0% (insulina)
- Hipoglicemias relevantes: 6,8% vs 19,2%
- Descontinuação por efeitos gastrointestinais: 62% vs 14%
Esses dados reforçam a segurança cardiovascular do orforglipron, posicionando‑o como uma alternativa viável às terapias injetáveis tradicionais.
Benefícios metabólicos do orforglipron
Além da neutralidade cardiovascular, o comprimido mostrou superioridade em vários desfechos metabólicos. Dois em cada três pacientes atingiram a meta de hemoglobina glicada (HbA1c) abaixo de 7%, enquanto menos da metade dos pacientes da insulina chegou a esse patamar.
A perda de peso foi ainda mais marcante. Cerca de 35,6% dos usuários do comprimido perderam 10% ou mais do peso corporal, comparado a apenas 4,4% no grupo da insulina, que costuma favorecer o ganho de peso.
As hipoglicemias graves, que podem levar a quedas e hospitalizações, foram quase três vezes menos frequentes entre os que tomaram orforglipron. Isso representa um ganho significativo em termos de segurança e qualidade de vida.
Entretanto, os efeitos gastrointestinais – náuseas, vômitos e diarreia – foram relatados por 62% dos pacientes em tratamento oral, contra 14% dos que usaram insulina. Esse efeito adverso é típico da classe de agonistas de GLP‑1, mas costuma ser mitigado com titulação gradual da dose e acompanhamento médico próximo.
Implicações clínicas e perspectivas no Brasil
O perfil de administração simples – um comprimido diário que pode ser tomado a qualquer hora, sem necessidade de jejum – abre caminho para que o orforglipron seja prescrito não apenas por endocrinologistas, mas também por cardiologistas, nefrologistas, clínicos gerais e médicos de família.
Para pacientes com alto risco cardiovascular, histórico de infarto ou doença renal crônica, ter à disposição uma terapia oral eficaz pode transformar o manejo diário da doença, reduzindo a dependência de injeções e aumentando a adesão ao tratamento.
No Brasil, o medicamento já recebeu aprovação para uso em obesidade nos Estados Unidos e no Reino Unido. Sua disponibilidade local dependerá da avaliação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e da definição de preço, fatores críticos que determinarão o acesso da população.
A simplificação do regime terapêutico – um comprimido ao invés de múltiplas injeções – representa uma vantagem estratégica em sistemas de saúde que buscam melhorar a aderência ao tratamento e reduzir custos associados a dispositivos de aplicação.
Em suma, a combinação de segurança cardiovascular, eficácia glicêmica, perda de peso significativa e conveniência de uso posiciona o orforglipron como um potencial divisor de águas no tratamento do diabetes tipo 2, especialmente para pacientes com comorbidades cardíacas e renais.








