Em 1º de outubro de 2024, pesquisadores divulgaram no New England Journal of Medicine os primeiros resultados do estudo SYNCHRONIZE-2, que avaliou a survodutida, uma injeção subcutânea semanal desenvolvida pela Boehringer Ingelheim. O ensaio foi apresentado no congresso da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes, realizado em Milão, e investigou o efeito da droga em pacientes que convivem simultaneamente com obesidade e diabetes tipo 2.
Como a survodutida funciona
A survodutida pertence a uma nova geração de fármacos anti‑obesidade que combinam duas vias hormonais. Ela imita o hormônio intestinal GLP‑1, conhecido por reduzir o apetite e melhorar o controle glicêmico, e também ativa o receptor de glucagon, estimulando o fígado a queimar gordura.
Essa dupla ação cria um equilíbrio: enquanto o GLP‑1 diminui a ingestão de alimentos e favorece a redução da glicose sanguínea, o glucagon contrabalança o risco de elevação glicêmica ao promover a oxidação de lipídios. O resultado é uma molécula que atua simultaneamente na perda de peso e no controle da diabetes.
Resultados do estudo SYNCHRONIZE-2
Foram incluídos 752 adultos de 19 países, todos com peso médio inicial de 104 kg e acompanhamento de dieta e atividade física durante 76 semanas. O grupo que recebeu a dose mais alta da survodutida perdeu, em média, 9,8 % do peso corporal, enquanto o placebo registrou queda de 3,9 %.
Quando analisados apenas os participantes que completaram o tratamento conforme o protocolo, a redução média chegou a 13,1 %. Além disso, 25,5 % dos pacientes da dose alta reduziram o peso em pelo menos 15 %, comparado a apenas 4 % no grupo placebo.
A hemoglobina glicada (HbA1c) diminuiu até 1,2 ponto percentual nos aderentes ao tratamento, partindo de uma média inicial de 7,4 %. Essa queda representa uma melhora clínica relevante para o manejo da diabetes tipo 2.
Efeitos sobre a gordura visceral e massa muscular
Um subestudo com ressonância magnética, realizado no protocolo SYNCHRONIZE‑1, mostrou que a gordura visceral – aquela que se acumula entre os órgãos abdominais – reduziu 34 % na dose mais alta da survodutida, enquanto o placebo apresentou queda de apenas 11,8 %.
Outro ponto positivo foi a preservação da massa magra. Aproximadamente 10 % do tecido perdido correspondeu a massa muscular, proporção inferior à observada com outros agonistas de GLP‑1, indicando um perfil de perda de peso mais direcionado à gordura.
Efeitos colaterais e aderência ao tratamento
Os eventos adversos mais frequentes foram náuseas, vômitos e diarreia, geralmente leves e concentrados na fase de escalonamento da dose. Mais da metade dos participantes da dose alta relatou náuseas, mas apenas 18 % interromperam o tratamento por causa desses sintomas, em contraste com pouco mais de 1 % no grupo placebo.
Esses dados sugerem que, embora os efeitos gastrointestinais sejam comuns, a maioria dos pacientes consegue manter a terapia, especialmente quando os benefícios de perda de peso e controle glicêmico são percebidos.
Implicações clínicas e próximos passos
Além dos resultados de peso e glicemia, estudos paralelos indicam benefícios hepáticos. No estudo SYNCHRONIZE‑MASLD, 61 % dos participantes com esteatose hepática apresentaram normalização da gordura no fígado após o uso da survodutida.
O próximo marco será a apresentação dos resultados do estudo SYNCHRONIZE‑CVOT, prevista para novembro de 2024, que avaliará se a droga reduz eventos cardiovasculares graves como infarto, AVC e mortalidade.
Se comprovada a eficácia cardiovascular, a survodutida poderá se tornar não apenas um agente de emagrecimento, mas também uma terapia preventiva contra complicações cardíacas em pacientes obesos e diabéticos.
- Redução média de peso: 9,8 % (dose alta) vs 3,9 % (placebo)
- Redução de HbA1c: até 1,2 ponto percentual
- Diminuição da gordura visceral: 34 % vs 11,8 %
- Preservação da massa muscular: ~10 % do tecido perdido
- Normalização da gordura hepática em 61 % dos casos de esteatose
Em síntese, a survodutida surge como uma promessa inovadora ao combinar os efeitos do GLP‑1 e do glucagon, direcionando a perda de peso para a gordura visceral, preservando músculo e oferecendo potenciais benefícios hepáticos e cardiovasculares. O acompanhamento de longo prazo e os resultados dos ensaios CVOT serão decisivos para confirmar seu papel no arsenal terapêutico contra obesidade e diabetes.








