Em 28 de setembro de 2024, a Anvisa aprovou o Kyinsu, a primeira caneta que reúne insulina basal e semaglutida em uma aplicação semanal no Brasil. O novo medicamento chega ao mercado como resposta ao medo de hipoglicemia e ganho de peso que ainda impede muitos pacientes de iniciar a terapia com insulina.
Como funciona a combinação de semaglutida e insulina basal
A insulina icodeca, componente basal do Kyinsu, foi a primeira insulina de ação semanal aprovada no país. Ela se liga a uma proteína do sangue e libera o hormônio de forma constante ao longo de sete dias, garantindo cobertura de fundo mesmo durante o sono.
A semaglutida, princípio ativo de medicamentos como Ozempic e Wegovy, imita o hormônio GLP‑1, estimulando a produção natural de insulina quando a glicose sobe, reduzindo o apetite e favorecendo a perda de peso.
Juntas, as duas substâncias atuam de forma complementar: a insulina basal controla o nível de açúcar entre as refeições, enquanto a semaglutida reduz os picos pós‑prandiais e diminui a necessidade de doses adicionais de insulina.
Resultados dos estudos clínicos
O estudo COMBINE 1, publicado em 2025 na The Lancet Diabetes & Endocrinology, avaliou 1.291 adultos com diabetes tipo 2 que já utilizavam insulina basal diária. Metade dos participantes recebeu Kyinsu e a outra metade, apenas icodeca, ambos em aplicação semanal.
Os resultados mostraram queda de 1,55 ponto percentual na hemoglobina glicada (HbA1c) para o grupo combinado, contra 0,89 ponto percentual para o grupo apenas com insulina. Essa diferença representa um controle glicêmico significativamente melhor.
Em termos de peso, quem usou Kyinsu perdeu, em média, 3,7 kg, enquanto o grupo de insulina isolada ganhou 1,9 kg, totalizando uma diferença de quase 6 kg.
As hipoglicemias relevantes ou graves diminuíram de 0,63 para 0,14 episódios por paciente ao ano, equivalente a uma redução de 78 %.
O estudo COMBINE 3 focou em pacientes que utilizavam um regime intensivo de insulina (uma dose de insulina longa + cerca de três doses rápidas diárias). Ao substituir esse regime por uma única aplicação semanal de Kyinsu, a HbA1c caiu 1,47 ponto percentual, praticamente igual ao 1,40 obtido no esquema tradicional.
No mesmo grupo, a perda média de peso foi de 3,6 kg, ao passo que o grupo de insulina convencional ganhou 3,2 kg. Além disso, o consumo total de insulina reduziu 58 % e as hipoglicemias relevantes ou graves caíram de 2,18 para 0,26 episódios por paciente ao ano, uma diminuição de 88 %.
Benefícios práticos para pacientes
Ao concentrar duas terapias em uma única caneta semanal, o Kyinsu simplifica a rotina de tratamento. Pacientes que antes precisavam de múltiplas injeções diárias agora realizam apenas uma aplicação, reduzindo o estresse associado ao manejo da doença.
Essa simplificação também tem impacto econômico: a conta anual de injeções pode cair de até 1.460 picadas para apenas 52, diminuindo custos com agulhas, seringas e materiais de descarte.
Além da conveniência, a combinação oferece benefícios clínicos claros: melhor controle glicêmico, perda de peso e menor risco de hipoglicemia, fatores que contribuem para a qualidade de vida e para a prevenção de complicações crônicas.
- Aplicação única por semana
- Redução de até 58 % no consumo total de insulina
- Perda média de 3,5 kg em pacientes
- Diminuição de até 88 % nas hipoglicemias graves
Esses resultados são particularmente relevantes para pacientes que têm dificuldade em aderir a esquemas complexos de tratamento, como idosos ou aqueles com rotinas agitadas.
Considerações de segurança e efeitos colaterais
Os efeitos colaterais mais frequentes do Kyinsu são semelhantes aos da semaglutida isolada: náuseas, diarreia, constipação e desconforto gastrointestinal. Na maioria dos estudos, esses eventos foram leves a moderados e tendem a diminuir com o tempo.
Embora a hipoglicemia seja menos comum, ela ainda pode ocorrer, principalmente se o paciente combinar o Kyinsu com outros antidiabéticos que aumentam a produção de insulina.
É fundamental que o uso do medicamento seja acompanhado por profissionais de saúde, que ajustarão a dose de insulina basal e orientarão sobre a dieta e a prática de atividade física.
Pacientes com histórico de pancreatite, retinopatia diabética avançada ou doença renal grave devem ser avaliados cuidadosamente antes de iniciar a terapia.
Em resumo, a aprovação do Kyinsu representa um avanço significativo no tratamento do diabetes tipo 2, oferecendo uma solução que alia eficácia clínica a praticidade no dia a dia.








