Um estudo de grande escala realizado nos Estados Unidos revelou que mulheres diagnosticadas com a síndrome dos ovários policísticos (SOP) têm quatro vezes mais chances de desenvolver doenças cardiovasculares. A pesquisa foi publicada na última segunda‑feira (20) na revista The Lancet Obstetrics, Gynaecology, & Women’s Health e analisou dados coletados entre 2000 e 2022. Os resultados apontam para a necessidade de reavaliar o acompanhamento clínico dessas pacientes desde o diagnóstico.
Dados e metodologia do estudo
Os investigadores utilizaram o banco de dados Optum Clinformatics, que contém informações de seguros de saúde de mais de 2,4 milhões de mulheres entre 18 e 50 anos. Dentre elas, 413.450 foram identificadas com SOP, enquanto 2.067.250 não apresentavam a condição e serviram como grupo de controle.
Para garantir a comparabilidade, as participantes foram pareadas por idade e tiveram seus históricos de obesidade, hipertensão e diabetes ajustados nas análises. O período de acompanhamento chegou a 22 anos, permitindo observar a incidência de eventos cardíacos ao longo do tempo.
Os desfechos avaliados incluíram doença coronariana, acidente vascular cerebral e doença arterial periférica, agrupados em um risco cardíaco composto. Além disso, foram realizadas análises de sensibilidade que excluiram usuárias de contraceptivos hormonais e de metformina, bem como participantes com dados incompletos sobre raça ou escolaridade.
Resultados e implicações clínicas
O risco cardíaco composto foi 4,4 vezes maior nas mulheres com SOP em comparação ao grupo sem a síndrome, mesmo após controlar os fatores de risco tradicionais. Esse aumento corresponde a um risco acumulado de 12,16% ao décimo ano de acompanhamento, contra 4,21% nas mulheres sem SOP.
Os fatores convencionais – obesidade, hipertensão e diabetes – explicaram apenas 36% da associação encontrada, sugerindo que mecanismos biológicos próprios da síndrome, como o hiperandrogenismo, desempenham papel relevante.
Os achados foram consistentes tanto em mulheres abaixo de 40 anos quanto naquelas com 40 anos ou mais, indicando que a idade não modera significativamente o risco adicional.
- Risco cardíaco composto: 4,4 vezes maior
- Incidência acumulada em 10 anos: 12,16% (SOP) vs 4,21% (controle)
- Fatores tradicionais explicam 36% da diferença
- Hiperandrogenismo apontado como possível mediador
Esses resultados contrastam com meta‑análises anteriores, que não encontraram associação significativa entre SOP e eventos cardiovasculares. Os autores atribuem a discrepância ao maior tamanho da amostra e à padronização dos desfechos cardíacos neste estudo.
Recomendações e limitações
Com base nas evidências, os pesquisadores sugerem que profissionais de saúde incluam avaliação de risco cardiovascular logo no diagnóstico de SOP. Estratégias de controle de peso, alimentação balanceada e prática regular de atividade física são enfatizadas como medidas preventivas.
Além disso, recomenda‑se investigação de tratamentos que modulem o perfil hormonal, como antiandrógenos, metformina e agonistas de GLP‑1, para verificar seu impacto na redução do risco cardíaco.
O estudo apresenta limitações importantes: os dados provêm de registros administrativos de seguros, sem acesso a exames detalhados de colesterol ou informações de mortalidade. A amostra restringe‑se a mulheres seguradas nos EUA, o que pode limitar a generalização dos resultados para outras populações.
Futuros trabalhos devem explorar a evolução do risco cardiovascular após a menopausa e considerar diferentes fenótipos da síndrome, a fim de personalizar intervenções e melhorar a qualidade de vida das pacientes.








