Em 2024, a Câmara dos Deputados, em Brasília, iniciou a análise do Projeto de Lei 3100/26, que visa proteger trabalhadores diagnosticados com doenças crônicas ou autoimunes. O texto propõe a proibição de demissão por motivos relacionados à saúde e garante adaptações temporárias nas atividades laborais. A iniciativa foi apresentada pela deputada Socorro Neri (PP‑AC) e já gera amplo debate entre empregadores e sindicatos.
Principais dispositivos do projeto
O projeto altera a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e a Lei 9.029/95, ampliando a definição de prática discriminatória. Além da demissão, são incluídas a recusa de contratação, a alteração contratual prejudicial, a restrição de promoções e a limitação de acesso a oportunidades profissionais quando motivadas por condição de saúde.
Essas mudanças buscam criar um ambiente de trabalho mais inclusivo, onde o diagnóstico médico não seja usado como justificativa para tratamento desfavorável. O texto também estabelece que a empresa deve manter sigilo absoluto sobre diagnósticos e relatórios médicos, sob pena de sanções civis, administrativas e trabalhistas.
Como funciona a proteção contra demissão
De acordo com o projeto, a demissão de um trabalhador com doença crônica será presumidamente discriminatória se ocorrer após a empresa ter sido formalmente informada sobre o diagnóstico, o tratamento ou a necessidade de adaptações. Essa presunção gera duas opções ao empregado: reintegração ao cargo com pagamento integral dos valores devidos durante o afastamento ou recebimento em dobro da remuneração referente ao período de afastamento.
A empresa, por sua vez, pode contestar a presunção apresentando evidências de que a demissão decorreu de razões técnicas, econômicas ou disciplinares, sem relação com a condição de saúde. Essa defesa deve ser feita por escrito e acompanhada de documentos que comprovem a motivação real da decisão.
Importante destacar que o projeto não cria estabilidade absoluta; ele apenas impede que a condição clínica seja utilizada como ferramenta de punição ou exclusão no ambiente de trabalho.
Adaptações temporárias e sigilo de dados
Outro ponto central da proposta é a possibilidade de o trabalhador solicitar mudanças temporárias na rotina laboral durante períodos de agravamento da doença ou de tratamento médico. As adaptações previstas incluem:
- Flexibilização do horário de entrada e saída;
- Teletrabalho ou trabalho remoto parcial;
- Uso do banco de horas para compensação de ausências;
- Reorganização de metas e prazos de entrega.
Para que a adaptação seja concedida, o empregado deve apresentar atestado médico que comprove a necessidade. Caso a empresa recuse o pedido, ela deve apresentar justificativa por escrito, detalhando os motivos objetivos que impossibilitam a alteração.
Além disso, o projeto determina que as empresas mantenham em sigilo absoluto os diagnósticos e relatórios médicos dos seus colaboradores. A divulgação indevida dessas informações pode resultar em multas e outras penalidades previstas nas esferas civil, administrativa e trabalhista.
Tramitação e próximos passos
O Projeto de Lei 3100/26 seguirá para análise conclusiva nas comissões de Saúde; Trabalho; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Cada comissão emitirá pareceres que influenciarão a votação final no plenário da Câmara.
Para se tornar lei, o texto ainda precisa ser aprovado nas duas casas do Congresso Nacional – Câmara dos Deputados e Senado Federal – e, posteriormente, ser sancionado pelo Presidente da República. Esse percurso pode levar meses, dependendo da intensidade dos debates e das emendas propostas pelos parlamentares.
Organizações de defesa dos direitos dos trabalhadores já manifestaram apoio ao projeto, ressaltando a importância de garantir segurança jurídica e dignidade a quem convive com doenças crônicas. Por outro lado, alguns representantes empresariais expressaram preocupação quanto ao impacto financeiro das adaptações e das possíveis indenizações.
O debate, portanto, reflete a necessidade de equilibrar a proteção ao trabalhador com a viabilidade operacional das empresas. A expectativa é que, ao final do processo legislativo, o Brasil avance em direção a um mercado de trabalho mais inclusivo e menos vulnerável a discriminações relacionadas à saúde.
Enquanto isso, especialistas recomendam que trabalhadores com doenças crônicas mantenham seus documentos médicos organizados e comuniquem formalmente suas necessidades ao empregador, a fim de assegurar seus direitos caso a proposta seja aprovada.
De modo geral, a iniciativa representa um marco importante na discussão sobre inclusão e direitos laborais no país, alinhando-se a tendências internacionais que buscam proteger a saúde e a dignidade dos trabalhadores.








