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Mark Carney lidera iniciativa das potências médias para reduzir a dependência dos EUA

O ex‑governador do Banco da Inglaterra, Mark Carney, anunciou nesta segunda‑feira, durante a Assembleia‑Geral da ONU em Nova Iorque, o lançamento de um novo fórum que pretende reunir países que buscam diminuir a influência dos Estados Unidos em suas políticas externas e comerciais. A proposta surge em meio a tarifas agressivas de Washington e a crescente percepção de que a ordem internacional baseada em regras está se fragmentando. O objetivo central é criar um espaço flexível onde nações de diferentes continentes possam cooperar sem depender exclusivamente da hegemonia americana.

O surgimento de Carney como líder da resistência canadense

Carney, de 61 anos, foi escolhido quase inesperadamente pelo Partido Liberal após a renúncia de Justin Trudeau, que enfrentava uma queda acentuada de popularidade. Seu histórico como presidente do Banco Central do Canadá e, posteriormente, do Banco da Inglaterra, conferiu-lhe credibilidade técnica, mas poucos esperavam que ele se tornasse o rosto da oposição ao protecionismo de Trump.

As tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos canadenses, somadas a ameaças de sanções, transformaram o tecnocrata em símbolo de resistência nacional. Em um discurso marcante em Davos, no início do ano, Carney declarou o fim da “ordem internacional baseada em regras” e convocou as chamadas “potências médias” a buscar alianças que não girassem em torno dos EUA.

Desde então, o canadense tem usado sua posição de moderador para articular uma agenda que combina pragmatismo econômico com valores éticos, buscando equilibrar os interesses comerciais com a soberania política.

A proposta dos Parceiros pelo Multilateralismo (P4M)

Durante a sessão da ONU, Carney apresentou oficialmente o grupo “Parceiros pelo Multilateralismo” (P4M). Em comunicado ao Financial Times, ele descreveu a iniciativa como “uma estrutura flexível e aberta para países de diferentes regiões e tradições políticas que estejam dispostos a trabalhar além de suas divergências”.

Os membros fundadores incluem:

  • Brasil, representado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva;
  • União Europeia, com a participação do Conselho Europeu liderado por António Costa;
  • Quênia, representado pelo presidente William Ruto;
  • Canadá, sob a liderança de Mark Carney.

Carney enfatiza que o P4M não será um bloco burocrático, mas um fórum que facilitará projetos conjuntos, trocas de tecnologia e coordenação de políticas de defesa e comércio. “Não é um bloco nem uma burocracia. É um novo espaço voltado para instituições universais, coalizões práticas e capacidades que existam fora dos governos”, afirmou em entrevista na ONU.

Especialistas do Carnegie Endowment, como Stewart Patrick, apontam que a iniciativa pode representar a primeira tentativa séria de organizar uma rede de países que compartilham a visão de reduzir a dependência dos EUA, algo que até então era visto como pouco viável.

Desafios e perspectivas para a independência dos EUA

Embora a proposta tenha gerado entusiasmo em Brasília e em outras capitais, ela também enfrenta obstáculos significativos. Primeiro, a própria estrutura econômica do Canadá ainda depende de exportações massivas para os Estados Unidos – cerca de 75% de seu comércio total.

Em resposta, Carney tem buscado diversificar a carteira comercial do país. Recentemente, a União Europeia concedeu ao Canadá o status de “membro associado”, um reconhecimento simbólico que abre portas para acordos setoriais. O primeiro‑ministro aproveitou a oportunidade para destacar a proximidade geográfica das ilhas de Saint‑Pierre e Miquelon, sugerindo a criação de uma “fronteira comercial” com a Europa.

Além disso, a iniciativa P4M deverá lidar com a falta de comprometimento de outras grandes potências. Enquanto a Rússia e a China mantêm posturas mais cautelosas – Putin não compareceu à Assembleia‑Geral e Xi Jinping optou por uma visita de Estado aos EUA – o grupo conta com o apoio de nações emergentes que veem na cooperação multilateral uma forma de contrabalançar a pressão americana.

Outro ponto crítico é a credibilidade da própria ONU, que tem sido alvo de críticas por sua suposta ineficácia. Mesmo o presidente Lula reconheceu que a confiança nas Nações Unidas está em níveis historicamente baixos, o que pode limitar a capacidade do P4M de operar dentro de um organismo já enfraquecido.

Por fim, a agenda de Carney inclui a promoção de projetos de energia renovável, infraestrutura digital e segurança cibernética, áreas que podem servir de alicerce para uma cooperação mais profunda entre os membros. Se bem-sucedida, a iniciativa pode redefinir o mapa geopolítico, criando um contrapeso ao tradicional domínio dos Estados Unidos sobre a política global.

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