Na quarta‑feira, 23 de outubro de 2023, soldados do Exército de Israel utilizaram tratores para arrancar oliveiras em aldeias próximas a Ramallah, na Cisjordânia ocupada, poucos dias antes da tradicional colheita de azeitonas. A ação deixou agricultores palestinos desolados ao verem seus olivais, que representam a base de sua subsistência, reduzidos a troncos mutilados.
Impacto direto na produção de azeitonas
Os agricultores afetados relataram a perda de centenas de árvores, muitas delas recém‑plantadas, o que compromete a produção de azeite e a renda familiar. Segundo Abd Alfattah Tamimi, proprietário de um olival de quase 3,6 hectares, “todas as nossas oliveiras foram arrancadas, inclusive as que acabamos de plantar”.
Em termos de volume, a destruição de cada árvore pode significar a perda de até 30 kg de azeitonas, o que se traduz em aproximadamente 1 litro de azeite. Quando somada à extensão dos olivais afetados, a redução potencial da produção pode alcançar 120 barris de azeite por família, segundo declarações de Nather Tamimi.
O setor de oliveiras responde por cerca de 8 % do Produto Interno Bruto palestino e gera mais de 60 mil empregos, de acordo com o Ministério da Agricultura da Autoridade Palestina. Assim, a destruição das árvores afeta não apenas os proprietários diretos, mas também trabalhadores sazonais, processadores e comerciantes.
- Perda de renda familiar imediata.
- Redução de empregos temporários na época da colheita.
- Diminuição da oferta de azeite no mercado interno.
- Impacto negativo na exportação de produtos agrícolas.
Reação dos agricultores e organizações
Os agricultores reuniram‑se em assembleias de emergência para documentar os danos e solicitar apoio internacional. Grupos de direitos humanos palestinos denunciaram a prática como “um ataque sistemático à subsistência e à identidade cultural”.
Além das declarações públicas, foram iniciadas ações judiciais nos tribunais israelenses, embora o histórico de decisões favoráveis seja limitado. As organizações também recorreram a campanhas nas redes sociais, usando imagens das árvores arrancadas para mobilizar a opinião pública.
Alguns agricultores recorreram a soluções improvisadas, como a tentativa de replantar mudas em áreas adjacentes, apesar das restrições de acesso a recursos hídricos e de segurança nas proximidades das bases militares.
Contexto político e histórico
O Exército de Israel justifica, em ocasiões anteriores, a remoção de oliveiras como medida preventiva contra “ameaças à segurança”, alegando que as árvores poderiam ser usadas como cobertura por militantes. No entanto, organizações de direitos humanos contestam essa narrativa, apontando para a falta de evidências concretas.
Historicamente, a destruição de olivais tem sido utilizada como ferramenta de pressão econômica contra comunidades palestinas. Desde a década de 1990, relatos documentam milhares de árvores cortadas, muitas vezes sob a alegação de expansão de assentamentos ou de “limpeza” de áreas consideradas estratégicas.
O aumento recente de ataques de colonos israelenses contra propriedades agrícolas intensificou o clima de tensão. Em 2023, o número de incidentes envolvendo a destruição de recursos naturais palestinos atingiu recorde, segundo relatórios de ONGs internacionais.
Perspectivas para a colheita deste ano
Com a temporada de colheita programada para a primeira semana de outubro, os agricultores temem que a perda de árvores comprometa a qualidade e a quantidade da produção. Muitos relataram que, mesmo com as árvores remanescentes, a colheita será “instável” devido ao clima de insegurança nas áreas rurais.
Especialistas agrícolas alertam que a redução de áreas cultiváveis pode levar a um aumento nos preços das azeitonas e do azeite, afetando tanto o consumidor local quanto os mercados de exportação. Além disso, a escassez pode incentivar a importação de azeite de países terceiros, reduzindo a competitividade da produção palestina.
Para mitigar os efeitos, algumas cooperativas estão organizando a compra coletiva de azeitonas de agricultores não afetados, tentando garantir que a produção total não caia drasticamente. Essa estratégia, porém, depende da disponibilidade de recursos logísticos e de apoio financeiro externo.
Em resumo, a destruição das oliveiras antes da colheita representa um golpe duplo: econômico, ao reduzir a produção, e simbólico, ao atacar um elemento central da identidade cultural palestina. O desfecho dependerá da capacidade de mobilização interna e da resposta da comunidade internacional.








