Um vídeo que mostra a entrega de um higienizador íntimo em um ambulatório municipal de Salvador ganhou milhões de visualizações nas redes sociais nas primeiras horas de setembro de 2026. A gravação foi feita durante o XX Congresso Brasileiro de Sexualidade Humana, realizado entre 2 e 4 de setembro, no Centro de Convenções da capital baiana. O conteúdo rapidamente foi associado ao governo federal, gerando dúvidas sobre a origem do financiamento.
Contexto da divulgação nas redes sociais
A enfermeira e sexóloga Maiara Teixeira publicou o material em seu perfil do Instagram, explicando o funcionamento da chamada “ducha anal” ou “kit chuca”. Em poucos dias, o vídeo ultrapassou a marca de dois milhões de visualizações e foi compartilhado por perfis que questionavam se o Ministério da Saúde estava custeando o item. A gravação foi feita em um estande da Secretaria Municipal da Saúde, dentro do ambiente do congresso.
No vídeo, a apresentadora Paloma Xavier, gestora do Multicentro de Saúde Carlos Gomes e do ambulatório especializado, demonstra o produto e destaca que ele está disponível gratuitamente para a população atendida. A menção ao “kit chuca” gerou confusão, pois o termo costuma ser usado informalmente para enema anal, mas o objeto mostrado trata‑se de uma ducha higiênica descartável.
Responsabilidade municipal e federal
Segundo informações obtidas pelo g1, a iniciativa de oferecer a ducha anal é exclusiva da rede municipal de Salvador. A prefeitura já incluía o item no catálogo de serviços do ambulatório desde a sua inauguração, em setembro de 2023. Na ocasião, a lista de materiais disponíveis também continha preservativos internos e externos, gel lubrificante e a oferta de PrEP para prevenção do HIV.
Quando questionado, o Ministério da Saúde afirmou que não compra, nem custeia, nem distribui kits de higiene íntima para o SUS. A pasta ressaltou que suas políticas são baseadas em evidências científicas e focam na atenção integral à saúde, cabendo aos municípios a implementação de ações locais.
É importante entender que o SUS funciona com gestão compartilhada entre União, estados e municípios. Enquanto a esfera federal define diretrizes nacionais, os municípios têm autonomia para criar e executar programas de saúde que atendam às necessidades específicas de sua população. Nesse caso, Salvador decidiu disponibilizar a ducha anal como parte de um conjunto de serviços voltados à comunidade LGBTQIA+.
Uso correto da ducha anal e limites da prevenção
Lucas Rocher, médico infectologista do Centro de Referência e Treinamento IST/Aids de São Paulo, explicou que a prática de usar a ducha antes do sexo anal é comum entre pessoas que recebem penetração anal. O objetivo principal é higiênico: remover resíduos fecais para aumentar o conforto durante a relação.
No entanto, o profissional alerta que a ducha não substitui métodos de prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Ela não funciona como barreira e não impede a transmissão de vírus ou bactérias. Por isso, o uso do higienizador deve ser complementado com preservativos e, quando indicado, com profilaxia pré‑exposição (PrEP).
Em resumo, a função da ducha é:
- Limpar o canal anal antes da prática sexual;
- Reduzir desconforto causado por resíduos fecais;
- Oferecer maior sensação de higiene ao usuário.
Ela não serve para:
- Prevenir infecções sexualmente transmissíveis;
- Substituir o uso de preservativo;
- Garantir imunidade contra doenças de transmissão sexual.
Lucas Rocher enfatiza que a confusão entre higiene e prevenção pode levar a comportamentos de risco, caso as pessoas deixem de usar preservativos ao acreditar que a ducha oferece proteção.
O ambulatório municipal especializado em saúde LGBT+ funciona no Multicentro de Saúde Carlos Gomes, localizado no centro de Salvador. Além da ducha anal, a unidade oferece acompanhamento psicológico, serviços de saúde mental, apoio a pessoas trans e travestis, e distribuição de medicamentos como a PrEP.
A iniciativa municipal tem sido elogiada por organizações da sociedade civil que defendem direitos à saúde integral da população LGBTQIA+. Elas apontam que a oferta de produtos como a ducha anal demonstra sensibilidade às necessidades específicas de um público frequentemente marginalizado nos serviços de saúde tradicionais.
Entretanto, críticos argumentam que a divulgação nas redes sociais pode gerar desinformação, sobretudo ao associar o item a políticas federais inexistentes. O Ministério da Saúde reforçou que não há financiamento federal para o kit e que eventuais dúvidas devem ser esclarecidas pelos gestores locais.
Até o momento, a Secretaria Municipal da Saúde de Salvador não respondeu ao pedido de informações adicionais sobre os critérios de distribuição e o volume de compras do produto. O g1 continuará acompanhando o caso para trazer atualizações.
Em síntese, o vídeo viralizou por trazer à luz uma prática ainda pouco conhecida do público geral, mas a responsabilidade pela oferta do higienizador recai exclusivamente sobre o município de Salvador. O Ministério da Saúde mantém sua posição de não financiar o kit, deixando a gestão local como responsável pela sua disponibilização e orientação de uso adequado.








