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Consumo excessivo de açúcar na primeira infância eleva risco de ansiedade na vida adulta, aponta estudo britânico

Um estudo da Universidade de Surrey, na Inglaterra, revelou que crianças expostas a grandes quantidades de açúcar nos primeiros mil dias de vida têm maior probabilidade de desenvolver ansiedade na fase adulta. A pesquisa analisou dados de mais de 45 mil participantes do UK Biobank, nascidos entre 1951 e 1956, período marcado pelo racionamento de alimentos durante e após a Segunda Guerra Mundial. Os resultados apontam ainda que a restrição precoce de açúcar pode reduzir a preferência por doces ao longo da vida.

Impacto do açúcar nos primeiros mil dias

Os primeiros mil dias, que abrangem desde a concepção até os dois anos de idade, são reconhecidos como uma janela crítica para o desenvolvimento cerebral e metabólico. Durante esse intervalo, o organismo ainda está em formação e sensível a estímulos nutricionais que podem programar respostas comportamentais futuras.

Segundo os pesquisadores, a ingestão elevada de açúcar nesse período está associada a alterações no circuito de recompensa do cérebro, favorecendo a busca por alimentos doces e, ao mesmo tempo, predispondo a transtornos de ansiedade. Os dados mostraram que indivíduos que consumiram mais açúcar nos primeiros dois anos apresentaram risco de ansiedade entre 5,45% e 6,29%, valores superiores aos observados em grupos que vivenciaram racionamento.

Além disso, a exposição precoce ao açúcar influenciou marcadores de neurodesenvolvimento, como o volume de substância cinzenta em várias regiões cerebrais. Das 139 áreas analisadas, 80 apresentaram diferenças significativas entre os grupos com diferentes níveis de exposição ao açúcar.

Racionamento de açúcar na pós‑guerra britânica

Durante a década de 1940 e início dos anos 1950, o governo britânico impôs restrições ao consumo de açúcar como parte de um amplo programa de racionamento de alimentos. Essa medida visava garantir o abastecimento de recursos escassos e controlar a inflação dos preços.

O racionamento só foi encerrado em setembro de 1953, quando o consumo médio de açúcar praticamente dobrou. Esse contexto histórico criou grupos naturais de indivíduos que cresceram sob diferentes níveis de disponibilidade de açúcar, permitindo aos pesquisadores comparar os efeitos a longo prazo.

Os participantes foram divididos em cinco grupos, conforme a exposição ao racionamento:

  • Grupo 1: expostos ao racionamento desde a gestação até os 12 meses de idade;
  • Grupo 2: expostos até os 18 meses;
  • Grupo 3: expostos até os 24 meses;
  • Grupo 4: nascidos logo após o fim do racionamento de açúcar;
  • Grupo 5: nascidos após o término de todo o racionamento de alimentos na Irlanda.

Dos 46.448 participantes, 37.229 fizeram parte dos grupos submetidos a racionamento de açúcar, enquanto 9.219 nunca vivenciaram essa restrição.

Ao longo de um acompanhamento médio de 15 anos, 6% dos indivíduos apresentaram episódios de ansiedade e 6,78% relataram episódios de depressão. O risco de ansiedade foi menor nos grupos que permaneceram sob racionamento até os 18 ou 24 meses, sugerindo um efeito protetor da menor exposição ao açúcar.

Preferência por doces e saúde mental na vida adulta

Além da relação entre açúcar precoce e ansiedade, o estudo investigou como a exposição inicial afeta a preferência por alimentos doces ao longo da vida. Os resultados indicaram que quem cresceu sob racionamento manteve uma menor predileção por sobremesas e produtos açucarados na idade adulta.

Essa mudança de hábito pode exercer um efeito secundário benéfico, reduzindo a incidência de doenças metabólicas como diabetes e hipertensão, que já são associadas ao consumo excessivo de açúcar.

Quanto à depressão, a associação inicial com a exposição ao açúcar perdeu significância após ajustes estatísticos, indicando que fatores alimentares na vida adulta podem atenuar o risco. Os autores sugerem que a inflamação crônica, mais que o consumo precoce de açúcar, poderia ser o principal caminho biológico ligado à depressão.

Vale destacar que as mulheres que não vivenciaram o racionamento apresentaram maior propensão a desenvolver ansiedade, reforçando a ideia de que vulnerabilidades de gênero podem interagir com fatores nutricionais.

Implicações práticas e recomendações

Os achados reforçam a importância de limitar a ingestão de açúcar nos primeiros anos de vida, não apenas para prevenir problemas metabólicos, mas também para proteger a saúde mental futura. Pediatras e nutricionistas podem usar essas evidências para orientar pais sobre a necessidade de oferecer alimentos menos doces durante a fase de desmame.

Políticas públicas que regulam a presença de açúcar em alimentos infantis, como leites aromatizados, cereais matinais e biscoitos, podem ter um impacto duradouro na prevenção de transtornos psiquiátricos. Estratégias de educação alimentar nas creches e escolas também são recomendadas.

Em síntese, a pesquisa demonstra que a nutrição precoce tem um papel crítico na formação de padrões comportamentais e neurobiológicos que perduram por décadas. Limitar a exposição ao açúcar nos primeiros mil dias pode ser uma medida simples, porém eficaz, para reduzir o risco de ansiedade e promover uma relação mais saudável com alimentos doces ao longo da vida.

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