As canetas que contêm fármacos GLP‑1, como semaglutida e tirzepatida, têm ganhado destaque em 2024 como opções eficazes para reduzir peso em pacientes com diabetes e obesidade, tanto no Brasil quanto em outros países. Embora apresentem resultados rápidos, especialistas alertam que o sucesso depende de mudanças de estilo de vida que vão além da simples prescrição do medicamento.
Como funcionam os fármacos GLP‑1
Os princípios ativos de Ozempic e Mounjaro atuam sobre o hormônio GLP‑1, que regula a sensação de fome e saciedade. Ao estimular receptores específicos no cérebro, esses compostos diminuem o apetite e aumentam a sensação de plenitude, levando o paciente a consumir menos calorias.
Além de reduzir o consumo alimentar, os fármacos promovem um leve aumento do gasto energético, contribuindo para a perda de gordura corporal. Estudos clínicos mostraram que usuários podem perder, em média, entre 5 % e 15 % do peso corporal em poucos meses de tratamento.
Entretanto, o efeito está intimamente ligado à continuidade do uso. Quando a medicação é interrompida, o organismo reativa mecanismos de defesa que buscam restaurar o peso perdido, como o aumento da produção de grelina, o hormônio da fome.
Efeito da interrupção e a importância dos hábitos
Uma revisão sistemática publicada no BMJ analisou 37 estudos com mais de 9.300 adultos. Os resultados mostraram que, após a suspensão da terapia, os participantes ganharam cerca de 0,4 kg por mês, retornando ao peso inicial em aproximadamente 19 meses.
O reganho de peso não indica falta de força de vontade, mas sim uma resposta biológica natural. O endocrinologista Paulo Rosenbaum, do Hospital Israelita Albert Einstein, explica que o corpo tenta “repor o déficit calórico” criado durante o uso da caneta.
Além do ganho de peso, os benefícios metabólicos – como melhora da glicemia, colesterol e pressão arterial – também tendem a desaparecer gradualmente quando o tratamento é descontinuado.
Portanto, os medicamentos devem ser vistos como ferramentas dentro de um plano mais amplo, que inclui alimentação equilibrada, atividade física regular e controle do estresse.
Estratégias práticas para manter o peso
Para transformar a perda de peso em um resultado permanente, é essencial adotar hábitos que potencializem os efeitos dos fármacos. A seguir, apresentamos recomendações baseadas em evidências científicas.
- Alimentação rica em proteínas e fibras: esses nutrientes aumentam a saciedade, diminuindo a ingestão de alimentos ultraprocessados.
- Exercícios físicos regulares: a combinação de treinamento aeróbico e de força preserva a massa magra e eleva o gasto calórico diário.
- Qualidade do sono: dormir de 7 a 9 horas por noite regula hormônios como leptina e ghrelina, que controlam o apetite.
- Gestão do estresse: técnicas de mindfulness, meditação ou terapia cognitivo‑comportamental reduzem a alimentação emocional.
- Hidratação adequada: consumir água ao longo do dia ajuda a evitar confusão entre sede e fome.
Incorporar essas práticas de forma gradual aumenta a aderência e diminui a sensação de restrição, fatores críticos para a manutenção a longo prazo.
Além disso, o acompanhamento médico periódico permite ajustar a dose ou avaliar a necessidade de continuar a terapia, evitando interrupções abruptas que favorecem o efeito rebote.
É importante também monitorar indicadores de saúde, como pressão arterial, glicemia e perfil lipídico, pois a perda de peso pode mascarar alterações metabólicas que exigem intervenção.
Para pacientes que não podem ou não desejam manter a caneta indefinidamente, estratégias comportamentais – como registro alimentar, metas SMART (específicas, mensuráveis, alcançáveis, relevantes e temporais) e apoio de grupos de pacientes – são recomendadas.
Em suma, a combinação de tratamento farmacológico com mudanças estruturais no estilo de vida cria um círculo virtuoso: a medicação facilita a perda inicial, enquanto os novos hábitos garantem a estabilidade dos resultados.
Especialistas ressaltam que o sucesso não depende de uma solução única, mas da sinergia entre ciência e comportamento. Quando o paciente internaliza hábitos saudáveis, a necessidade de medicação pode ser reduzida ao longo do tempo, diminuindo custos e efeitos colaterais.
Por fim, a educação continuada sobre nutrição, atividade física e saúde mental deve fazer parte de qualquer programa de tratamento da obesidade, seja ele prescrito por um endocrinologista, nutricionista ou médico de família.
Compreender que a obesidade é uma doença crônica, assim como a hipertensão ou o diabetes, ajuda a mudar a percepção de que a perda de peso é apenas questão de força de vontade. Trata‑se de um processo multifatorial que requer suporte multidisciplinar.
Ao adotar uma abordagem integrada, pacientes aumentam as chances de alcançar e manter um peso saudável, melhorando a qualidade de vida e reduzindo o risco de complicações associadas à obesidade.








