No sábado, 19 de outubro, estudantes de Gaza voltaram às salas de aula, apesar da destruição causada pela guerra que ainda assola a região. Mais de meio milhão de jovens retomaram o percurso escolar, enfrentando edifícios danificados, falta de material e ambientes improvisados. O retorno marca o início do novo ano letivo, embora a realidade seja muito diferente do que se vivia antes do conflito.
O retorno às aulas em meio à destruição
Segundo o Ministério da Educação palestino, aproximadamente 541 mil estudantes compareceram às aulas neste primeiro dia. As escolas que ainda permanecem de pé apresentam paredes rachadas, janelas quebradas e ausência total de carteiras. Em muitas unidades, os alunos foram obrigados a sentar‑se no chão ou sobre tapetes, enquanto professores improvisam mesas com materiais disponíveis.
Em Nuseirat, crianças participaram de uma assembleia matinal, cantando canções de esperança antes do início das aulas. O clima era de emoção contida, pois a simples possibilidade de aprender novamente já representa um grande passo. Contudo, a falta de recursos básicos – livros, cadernos, canetas – ainda é uma barreira que impede o pleno desenvolvimento das atividades.
Em Khan Younis, parte dos alunos estudou em tendas montadas nos pátios das escolas. Moayed Abu Mustafa, estudante que esteve afastado da educação por três anos, descreveu as condições como “apertadas, sem ventilação e sem assentos”. As aulas, que antes duravam cerca de seis horas diárias, agora são reduzidas a três horas em dias alternados, refletindo a necessidade de adaptar o calendário à realidade de infraestrutura limitada.
Condições precárias e improvisações
Os professores também têm sido protagonistas de improvisos. A professora Raja Al‑Nabahin relatou que, antes da guerra, as escolas contavam com carteiras, livros e materiais didáticos completos. Hoje, a falta desses itens faz com que a rotina escolar dependa de doações e de iniciativas locais para suprir as necessidades imediatas.
Alguns professores transformaram corredores vazios em salas de aula temporárias, usando cadeiras de plástico e mesas de madeira encontradas em casas vizinhas. Em outras situações, foram criados espaços ao ar livre, cobertos por lonas, onde os alunos podem estudar em segurança relativa, apesar das intempéries.
Para organizar a escassez de recursos, as escolas têm adotado listas de prioridades. Abaixo, alguns itens que ainda são críticos:
- Livros didáticos atualizados
- Cadernos e material de escrita
- Carteiras e cadeiras adequadas
- Equipamentos de ventilação para tendas
- Materiais de limpeza e higiene
Essas necessidades foram compiladas por organizações não‑governamentais que atuam na Faixa de Gaza, as quais esperam mobilizar apoio internacional para suprir a demanda crescente.
O impacto humano e as perspectivas de reconstrução
O conflito deixou marcas profundas no sistema educacional. Aproximadamente 22 mil estudantes e mais de 770 trabalhadores da educação perderam a vida, entre eles 532 professores. Esses números, divulgados pelo Ministério da Educação de Gaza, revelam a dimensão da tragédia que vai além das estruturas físicas.
Além das perdas humanas, mais de 85% dos prédios escolares públicos permanecem fora de operação. Muitos foram completamente destruídos, enquanto outros ficam em áreas restritas pela chamada “linha amarela”, zona que ainda não pode ser utilizada para atividades educacionais.
Especialistas apontam que a reconstrução das escolas será gradual. O ministro da Educação, Al‑Hourani, enfatizou que os edifícios serão liberados conforme as áreas deixem de ser ocupadas por deslocados internos, permitindo que a educação retome seu papel central na comunidade.
Entretanto, a recuperação não depende apenas da reconstrução física. A comunidade escolar tem buscado estratégias de apoio psicossocial, reconhecendo que o trauma causado pelos bombardeios afeta diretamente o desempenho acadêmico. Programas de aconselhamento e grupos de apoio foram instalados em algumas escolas, oferecendo um espaço seguro para que crianças expressem seus sentimentos.
Organizações internacionais têm contribuído com doações de material escolar, treinamento de professores e apoio logístico. A UNICEF, por exemplo, enviou kits de aprendizagem que incluem livros, lápis, cadernos e tablets com conteúdo digital, tentando mitigar a escassez de recursos tradicionais.
Apesar das dificuldades, a determinação dos estudantes e educadores permanece como um farol de esperança. Cada aula iniciada, mesmo em tendas ou no chão, representa um ato de resistência contra a tentativa de silenciar o futuro da juventude palestina.
O retorno às aulas também sinaliza para a comunidade internacional a necessidade urgente de proteger a educação em zonas de conflito. Convenções internacionais reconhecem a educação como um direito fundamental, e a sua violação deve ser acompanhada de medidas concretas para garantir a segurança de escolas e alunos.
Em resumo, o início do ano letivo em Gaza traz à tona uma realidade complexa: escolas danificadas, recursos escassos, mas uma população que não abandona o desejo de aprender. O caminho para a plena recuperação será longo, porém cada passo dado pelos estudantes, professores e organizações reforça a convicção de que a educação pode, e deve, florescer mesmo nas circunstâncias mais adversas.








