Nos últimos meses, perfis criados por inteligência artificial têm se proliferado nas principais plataformas digitais, oferecendo “remédios” naturais e tratamentos sem comprovação científica. A prática ganhou força entre 2024 e 2025, atingindo usuários de todo o Brasil, especialmente idosos que buscam soluções rápidas para problemas de saúde.
Quem são os personagens digitais e como surgiram
Vó Xayomi, Dona Odete e Vovó Mei Lin Chen são avatares gerados por algoritmos que simulam vozes e aparências de mulheres sábias, vestidas com trajes típicos e rodeadas de elementos da cultura popular. Cada um deles acumula centenas de milhares de seguidores no Instagram, TikTok e YouTube, onde postam vídeos curtos com promessas de cura em sete dias.
Esses avatares não existem na realidade; são fruto de softwares de geração de imagem e voz, treinados com dados de linguagem natural. A estratégia de marketing consiste em criar uma identidade confiável, usando termos como “sabedoria indígena” ou “medicina tradicional chinesa” para atrair quem já tem predisposição a acreditar em soluções naturais.
Tipos de promessas e produtos oferecidos
Os conteúdos apresentam uma variedade de receitas, desde chás para controlar a diabetes até sucos que supostamente eliminam cálculos renais em 72 horas. Em muitos vídeos, a promessa é acompanhada por um convite para adquirir um e‑book ou um curso pago que detalha “mais de 200 remédios naturais”.
- Chá de hibisco para baixar o colesterol.
- Infusão de carqueja para tratar menopausa.
- Sucos detox de couve e limão para emagrecimento rápido.
- Mistura de gengibre e canela para regular a glicemia.
Essas ofertas são divulgadas com linguagem alarmista, que aponta a indústria farmacêutica como inimiga que supostamente oculta curas “naturais”. A narrativa cria um clima de desconfiança e urgência, estimulando cliques e compras.
Riscos reais para a saúde pública
Especialistas alertam que a adesão a esses tratamentos pode gerar complicações graves. O médico de família Henrique Sater, da Unicamp, explica que substituir insulina por um chá pode levar à perda de visão ou até à morte em pacientes diabéticos. Da mesma forma, a hepatologista Lívia Falcão relata casos de inflamação hepática grave após o uso indiscriminado de chás detox.
Outros profissionais, como o nefrologista Thyago Proença de Moraes, reforçam que a ingestão de supostos “sucos quebra‑pedras” pode atrasar o diagnóstico de infecção urinária, transformando uma condição tratável em emergência médica.
Além dos danos físicos, há prejuízos financeiros. Muitos usuários investem em e‑books que custam entre R$ 50 e R$ 150, sem receber nenhum benefício comprovado. A combinação de desinformação e lucro fácil cria um ciclo perigoso, sobretudo entre a população idosa, que tem menor familiaridade com ferramentas de verificação de conteúdo.
Reação das autoridades e medidas de combate
Em resposta ao crescimento do fenômeno, a Advocacia‑Geral da União, a pedido do Ministério da Saúde, notificou o YouTube para que removesse ou sinalizasse vídeos que promovem tratamentos sem evidência científica. Entre 1º de janeiro e 10 de julho deste ano, foram identificados 97 perfis de supostos médicos com credenciais falsas.
O Ministério da Saúde também lançou campanhas educativas nas redes, ensinando a identificar deepfakes e a checar a procedência de informações de saúde. Plataformas como Instagram e TikTok passaram a aplicar algoritmos que reduzem a distribuição de conteúdos que contenham termos como “cura milagrosa” ou “remédio natural” sem comprovação.
Organizações não‑governamentais, como a Olá Doutor, realizam pesquisas para medir a capacidade da população de distinguir perfis reais de falsos. O último levantamento indica que quatro em cada dez brasileiros ainda não conseguem fazer essa diferenciação, evidenciando a necessidade de maior alfabetização digital.
Como o usuário pode se proteger
Para evitar cair em armadilhas, especialistas recomendam alguns passos simples:
- Verificar se o profissional possui registro em conselhos de classe (CRM, CRO, etc.).
- Buscar fontes confiáveis, como sites de hospitais universitários e revistas científicas.
- Desconfiar de promessas de resultados em poucos dias sem evidência clínica.
- Consultar um médico de verdade antes de iniciar qualquer tratamento alternativo.
Além disso, é fundamental denunciar perfis que espalham desinformação. As plataformas disponibilizam ferramentas de reporte que, quando acionadas, podem levar à remoção do conteúdo ou ao bloqueio da conta.
O combate à desinformação de saúde requer a colaboração de usuários, profissionais da saúde e empresas de tecnologia. Só assim será possível reduzir o número de vítimas e preservar a confiança nas instituições médicas.








