Em entrevista ao podcast “O Assunto”, o professor Oliver Stuenkel, da FGV e do Carnegie Endowment, revelou que a pressão dos Estados Unidos sobre processos políticos no Brasil faz parte de um plano maior de interferência nas eleições da América Latina. A declaração foi feita nesta quinta‑feira (17), após a divulgação de uma lista de 52 exigências americanas ao governo brasileiro nas negociações sobre o tarifaço.
Pressão americana nas eleições latino‑americanas
Stuenkel explicou que o documento enviado pelos EUA inclui a exigência de que “dissidentes políticos” possam concorrer às eleições de 2026 no Brasil, demonstrando que a política tarifária está sendo usada como ferramenta de influência política. O professor destaca que essa prática não é pontual, mas sim parte de um projeto que abrange toda a região.
Segundo a análise, as ameaças são explícitas e pouco comuns nas relações diplomáticas tradicionais. O governo brasileiro rejeitou as exigências, afirmando que questões políticas, judiciais e de soberania não estão em pauta nas negociações comerciais.
Casos concretos: Argentina e Honduras
O professor citou dois exemplos recentes de pressão americana. Na Argentina, Trump manifestou preferência por um dos blocos durante a eleição legislativa de 2023 e advertiu que a ajuda dos EUA poderia ser reduzida caso o grupo opositor a Javier Milei fosse eleito.
Stuenkel esteve na Argentina naquele período e avaliou que a intervenção norte‑americana pode ter influenciado o resultado favorável ao atual presidente, num cenário de moeda em crise. Ele ressalta que a influência econômica reforça a pressão política.
No caso de Honduras, Trump ameaçou uma grave crise bilateral caso o candidato Nasry Asfura, seu preferido, não fosse eleito. O país, altamente dependente de ajuda e comércio dos EUA, pode ter sentido o impacto direto da ameaça nas urnas.
Impactos além da América Latina
Stuenkel também apontou intervenções fora da região. Na Alemanha, o vice‑presidente J.D. Vance visitou o país pouco antes das eleições e deixou clara a preferência pelo partido de extrema‑direita AfD. Na Austrália e no Canadá, a pressão resultou em efeito contrário, prejudicando candidatos alinhados a Trump, pois eleitores passaram a temer ameaças à soberania nacional.
Esses episódios demonstram que a estratégia de pressão pública tem sido dominante no governo de Trump até o momento, embora o professor advirta que isso pode mudar no futuro.
Além das eleições, a influência americana se estende a decisões internas de outros países latino‑americanos. Stuenkel citou o Peru, pressionado a excluir empresas chinesas de um porto estratégico, e o Panamá, instado a expulsar companhias chinesas do Canal.
Ele enfatiza que o Brasil, por ser a maior economia da região, pode resistir a algumas demandas, mas ainda enfrenta ameaças que podem moldar políticas internas.
Lista de exigências americanas ao Brasil
Entre as 52 exigências enviadas pelos EUA, destacam‑se:
- Garantia de participação de dissidentes políticos nas eleições de 2026;
- Revisão de tarifas de importação de produtos agrícolas;
- Compromisso de redução de subsídios ao setor de energia;
- Alinhamento de políticas de defesa com padrões norte‑americanos;
- Transparência nas negociações de investimentos estrangeiros.
Esses pontos ilustram como o “tarifaço” foi usado como pretexto para avançar demandas políticas e estratégicas.
A rejeição brasileira às exigências reforça a defesa da soberania nacional, mas também evidencia a vulnerabilidade de um país que depende de relações comerciais com a maior economia do mundo.
Especialistas em relações internacionais alertam que a combinação de pressão econômica e política pode criar um ambiente de instabilidade institucional, especialmente em períodos eleitorais.
Para o professor Stuenkel, a situação no Brasil serve de alerta para toda a América Latina, que deve monitorar de perto as intenções dos Estados Unidos e buscar mecanismos de resistência coletiva.
Ele recomenda a criação de alianças regionais que fortaleçam a autonomia política e econômica, reduzindo a dependência de um único parceiro comercial.
Além disso, Stuenkel sugere que governos latino‑americanos invistam em transparência nas negociações internacionais, tornando públicas as exigências recebidas e os impactos potenciais sobre a democracia.
O professor também destaca a importância de fortalecer instituições eleitorais independentes, capazes de resistir a pressões externas e garantir processos justos.
Em resumo, a pressão de Trump sobre o Brasil não se limita ao debate tarifário, mas se insere em um padrão mais amplo de interferência que pode comprometer a integridade das democracias latino‑americanas.
Os próximos anos serão decisivos para observar se os países da região conseguirão manter sua soberania diante de estratégias de coerção que combinam economia e política.
Enquanto isso, a sociedade civil brasileira tem se mobilizado, cobrando transparência e denunciando tentativas de manipulação externa.
Organizações de direitos humanos e grupos de monitoramento eleitoral lançaram campanhas nas redes sociais, alertando sobre os riscos de aceitar demandas que coloquem em risco a livre escolha dos cidadãos.
Essas iniciativas reforçam a necessidade de um debate público amplo, que inclua acadêmicos, políticos e a população em geral.
O caso também reacendeu discussões sobre a necessidade de reformas no sistema de comércio internacional, que muitas vezes permite que grandes potências utilizem acordos econômicos como alavanca para objetivos políticos.
Em última análise, a situação evidencia que a diplomacia moderna exige mais do que acordos comerciais; requer um equilíbrio cuidadoso entre interesses econômicos e a preservação da autonomia política.








