Uma investigação da BBC News Brasil revelou que, em 2024, centenas de canais do YouTube estão publicando vídeos que misturam inteligência artificial e narrativas sexuais sobre a escravidão brasileira. Esses canais, que operam em vários idiomas, acumulam mais de 80 milhões de visualizações e mais de um milhão de inscritos, explorando o passado doloroso para gerar cliques e receita publicitária.
Como funciona a produção de conteúdo baseado em IA
Os criadores utilizam ferramentas de geração de texto, imagem e áudio para montar histórias fictícias que se passam no período escravagista. O processo inclui a criação de roteiros automatizados, capas hiper‑realistas e narrações sintetizadas, tudo em poucos minutos.
O resultado são vídeos longos, muitas vezes com quase uma hora de duração, que apresentam supostos episódios de romance proibido, traições e abusos entre senhores e escravizados. As capas costumam exibir homens negros musculosos e mulheres brancas em poses erotizadas, projetadas para chamar a atenção nos algoritmos de recomendação.
- Geração de roteiro por IA baseada em palavras‑chave sensacionalistas;
- Criação de imagens com modelos de difusão que simulam fotografias históricas;
- Narração automática em várias línguas, inclusive português;
- Edição rápida que une todos os elementos em um único arquivo de vídeo.
Essas etapas reduzem drasticamente os custos de produção, permitindo que os canais publiquem dezenas de vídeos por semana, alimentando o que os especialistas chamam de “AI slop”, conteúdo de massa de baixa qualidade, mas altamente rentável.
Estratégia de monetização e rotatividade de nichos
O modelo de negócios é simples: escolher um tema controverso, produzir em escala e esperar que alguns vídeos atinjam milhões de visualizações. Quando a audiência começa a cair, os criadores mudam de assunto e replicam a mesma fórmula em outro nicho, como mitos urbanos, teorias da conspiração ou histórias de terror.
Um administrador entrevistado pela BBC descreveu o processo como “uma fábrica de narrativas”, onde personagens, enredos e até mesmo títulos são reaproveitados, mudando apenas nomes, datas e locais. Um exemplo citado foi a história de um coronel que supostamente compartilhava sua esposa com sete escravizados; a versão original recebeu 1,5 milhão de visualizações e gerou mais de 1,5 mil comentários, enquanto variações do mesmo enredo apareceram em mais de 30 canais diferentes.
Essa rotatividade garante que o algoritmo continue a recomendar novos vídeos, mantendo o fluxo de receita publicitária e de programas de afiliados, apesar das críticas e denúncias.
Impactos sociais e raciais das narrativas
Especialistas alertam que o problema vai além da exploração sensacionalista. Ao retratar homens negros como objetos de desejo sexual e mulheres brancas como protagonistas eróticas, os vídeos reforçam estereótipos racistas que associam o corpo negro à hipersexualização e à submissão.
A ausência de contextualização histórica — que deveria evidenciar a violência, a desumanização e a exploração econômica da escravidão — transforma o período em um cenário romântico e fantasioso. Essa distorção perpetua a ideia de que a população negra está eternamente vinculada ao passado escravocrata, dificultando a compreensão crítica do legado racial no Brasil contemporâneo.
Além disso, a apresentação de supostos fatos sem fontes confiáveis alimenta a desinformação, confundindo espectadores que não têm acesso a fontes acadêmicas ou a um ensino histórico sólido. A combinação de imagens impactantes, narrativas emocionais e algoritmos de recomendação cria um ciclo de reforço que pode consolidar preconceitos e minar esforços de educação antirracista.
Para combater esse fenômeno, pesquisadores recomendam:
- Monitoramento mais rigoroso das políticas de conteúdo do YouTube;
- Desenvolvimento de ferramentas de verificação de fatos específicas para narrativas históricas;
- Educação midiática que ajude o público a identificar sinais de manipulação por IA;
- Incentivo à produção de conteúdo histórico verificado e de qualidade, que ofereça perspectivas críticas e inclusivas.
Enquanto as plataformas digitais não adotarem medidas eficazes, a combinação de tecnologia avançada e exploração de traumas históricos continuará a gerar lucros às custas da memória coletiva e da dignidade de grupos historicamente marginalizados.








