Em setembro de 2024, o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, enviou mensagens que revelam a ordem para monitorar dois empresários que, segundo ele, teriam causado prejuízos em seus negócios na Venezuela. O contato foi feito via WhatsApp com Felipe Mourão, conhecido como “Sicário”, que liderava um grupo de pressão e ameaças.
Contexto das investigações
As investigações da Polícia Federal avançaram ao analisar mensagens trocadas entre Vorcaro e seus comparsas. Os documentos mostram que o banqueiro mantinha investimentos de cerca de US$ 150 milhões em poços de petróleo no país sul‑americano.
Esses investimentos foram alvo de críticas e suspeitas de irregularidades, o que motivou a busca por informações sobre possíveis perdas financeiras. A PF já havia iniciado inquéritos que ligam Vorcaro a esquemas de corrupção e lavagem de dinheiro, ampliando o escopo da apuração.
Mensagens trocadas entre Vorcaro e o Sicário
No dia 18 de setembro de 2024, Vorcaro enviou a Mourão a frase “Esses caras me roubaram” acompanhada de um documento que citava Gabriel Garrido Lacerda e André Flores Tavares. O pedido foi direto: “Levantar tudo”.
Em resposta, o “Sicário” questionou o que deveria ser feito, ao que Vorcaro respondeu que a missão deveria ser executada com força total. O tom das mensagens indica uma estratégia de intimidação coordenada.
Na sequência, Vorcaro enviou novos detalhes, apontando que os alvos eram empresários de Faria‑Lima que, depois de sofrer pressão, foram para a Venezuela e, segundo ele, roubaram recursos. Ele reforçou a necessidade de agir com vigor.
Operações de intimidação e ligações com a Interpol
Felipe Mourão, ao receber as ordens, sugeriu reunir-se no dia seguinte com a “Turma”, grupo que apoiava Vorcaro nas ameaças. Durante a conversa, Mourão afirmou que o grupo possuía ficha na Interpol, indicando um nível de organização que ultrapassa a mera intimidação local.
O dia 19 de setembro, Mourão encaminhou a Vorcaro documentos contendo dados pessoais de Lacerda e Tavares. Essas informações foram obtidas por meio de Marilson Roseno da Silva, ex‑policial federal que colaborou com a investigação.
O uso de dados pessoais para pressionar empresários evidencia uma prática de vigilância e coerção que pode configurar crime de ameaça e violação de privacidade.
Repercussões e desdobramentos
As investigações ganharam nova dimensão quando o “Sicário” foi encontrado morto em sua cela na Polícia Federal, em Belo Horizonte. A conclusão oficial foi de suicídio por enforcamento, mas o caso ainda gera dúvidas sobre possíveis pressões internas.
O desfecho da morte de Mourão alimenta teorias sobre retaliações dentro da própria rede de intimidação. Enquanto isso, a Justiça continua a analisar as provas apresentadas, que incluem mensagens, documentos e depoimentos de colaboradores.
Os desdobramentos podem levar a novas acusações contra Vorcaro, que já responde por outros processos ligados ao escândalo do Banco Master. A expectativa é que a investigação revele se há outros agentes envolvidos em esquemas de monitoramento e chantagem.
Além das implicações penais, o caso destaca a vulnerabilidade de empresários que operam em ambientes de alta instabilidade política e econômica, como a Venezuela. A prática de monitoramento digital e ameaças pode se tornar um mecanismo de controle em negócios internacionais.
Especialistas em direito empresarial apontam que a exposição de dados pessoais, combinada com ameaças físicas, constitui violação grave das normas de proteção ao crédito e à privacidade, sujeita a sanções civis e criminais.
O caso também traz à tona a necessidade de reforçar mecanismos de cooperação internacional, sobretudo entre autoridades brasileiras e venezuelanas, para rastrear fluxos financeiros suspeitos e proteger investidores legítimos.
Até o momento, não há registro de condenação definitiva para Vorcaro, mas o volume de evidências pode influenciar futuras decisões judiciais. A sociedade civil e organizações de direitos humanos acompanham o caso, alertando sobre o risco de impunidade em casos de corrupção transnacional.








