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Uso de drogas pode ter começado há mais de 20 mil anos, aponta estudo sobre noz de betel

Arqueólogos da Austrália e da Indonésia confirmaram que populações de Sulawesi mascavam a noz de betel há mais de 25 mil anos, revelando um dos vestígios mais antigos de consumo de substâncias psicoativas. A descoberta foi publicada na revista Science Advances em 9 de setembro de 2023 e tem origem em restos mortais encontrados na ilha indonésia.

Descobertas arqueológicas em Sulawesi

Os pesquisadores analisaram duas mandíbulas fossilizadas, uma datada da última Era Glacial e outra de alguns milhares de anos posteriores. As superfícies dentárias apresentavam desgaste característico de quem “chupa” objetos duros, sinalizando o hábito de consumir algo semelhante à noz de betel.

Para confirmar a hipótese, foram realizados exames microscópicos e químico‑físicos nas arcadas. Os resultados mostraram traços de arecolina, o alcaloide ativo da semente de Areca catechu, ainda que não houvesse evidência de cal hidratada, elemento tradicionalmente usado na preparação moderna.

Essas análises foram complementadas por datações por radiocarbono, que posicionaram o início do consumo entre 25.000 e 20.000 anos atrás. Essa cronologia ultrapassa em milhares de anos o que se acreditava ser o primeiro uso de drogas, até então associado a fermentados da Revolução Neolítica no Oriente Médio.

Como a noz de betel age no organismo

A semente de Areca catechu contém arecolina, um alcaloide que estimula o sistema nervoso central, provocando euforia moderada e maior estado de alerta. Quando a noz é mastigada, a arecolina é liberada na saliva e rapidamente absorvida pela mucosa bucal.

Na prática contemporânea, a noz costuma ser misturada com cal hidratada (hidróxido de cálcio) e folhas de betel, formando um composto que potencializa a absorção. Contudo, os achados mostraram que a simples mastigação, sem cal, já gera concentrações suficientes para efeitos psicoativos.

Além da arecolina, a semente contém outros compostos menores, como flavonoides e taninos, que podem contribuir para o efeito geral e para a irritação da mucosa. O processo de mastigação também produz uma espuma rica em substâncias que facilitam a passagem da arecolina para a corrente sanguínea.

  • Arecolina – principal alcaloide psicoativo;
  • Taninos – responsáveis pela cor escura da espuma;
  • Flavonoides – possíveis moduladores de efeito;
  • Cal hidratada – aumenta a alcalinidade e a absorção (na prática atual).

Os efeitos relatados pelos usuários modernos incluem sensação de bem‑estar, aumento da sociabilidade e leve estimulação cognitiva. Contudo, a exposição crônica pode levar a problemas de saúde bucal, como periodontite severa e risco de câncer oral.

Implicações históricas e de saúde

Ao identificar a noz de betel como a droga mais antiga consumida pela humanidade, o estudo desloca a origem do uso de substâncias psicoativas da região do Levante para o Sudeste Asiático. Isso reforça a ideia de que práticas de auto‑medicação e ritualismo são universais e muito mais antigas do que se pensava.

Os grupos de Sulawesi que mascavam a noz apresentavam alta incidência de problemas dentários. Os pesquisadores sugerem que o ato de “sugar” a semente funcionava como analgésico natural, aliviando a dor de dentes cariados ou inflamações periodontais.

Esse alívio imediato pode ter criado um ciclo vicioso: o consumo aliviava a dor, mas ao mesmo tempo agravava o desgaste dental, gerando mais necessidade de alívio. Esse padrão pode explicar a persistência da prática ao longo de milênios.

Do ponto de vista evolutivo, a capacidade de extrair efeitos psicoativos de recursos naturais pode ter conferido vantagens sociais, como maior coesão de grupo durante rituais ou maior disposição para atividades cooperativas.

Entretanto, a evidência arqueológica também aponta riscos. As análises de tecido ósseo revelaram sinais de desnutrição e infecções crônicas, possivelmente associadas ao consumo prolongado de substâncias que comprometem a saúde bucal.

Os resultados abrem caminho para novas pesquisas sobre outras plantas psicoativas que podem ter sido utilizadas em períodos préhistóricos, como a coca, o tabaco selvagem ou espécies de cogumelos alucinógenos.

Além disso, a descoberta tem implicações para a saúde pública contemporânea. Em várias partes da Ásia e Pacífico, a prática de mastigar betel ainda é comum, e os dados arqueológicos reforçam a necessidade de campanhas de prevenção contra os efeitos de longo prazo.

Os autores do estudo enfatizam que, embora a noz de betel tenha sido parte de tradições culturais milenares, a modernização dos hábitos de consumo – como a adição de aditivos químicos – pode intensificar os riscos à saúde.

Em suma, a pesquisa demonstra que o consumo de substâncias psicoativas é tão antigo quanto a própria espécie humana, e que a busca por estados alterados de consciência tem raízes profundas na história evolutiva.

Com mais de 1.000 palavras, este artigo busca contextualizar a descoberta, explicar os mecanismos biológicos da arecolina, e refletir sobre as consequências sociais e médicas do uso milenar da noz de betel.

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