O Tribunal Superior Eleitoral determinou nesta segunda‑feira que o senador Flávio Bolsonaro e seus apoiadores retirem das redes sociais um vídeo falsificado que mostrava suposta cena de uso de cocaína durante as manifestações a favor de Luiz Inácio Lula da Silva no domingo, 11 de setembro, em São Paulo. A decisão, proferida pelo ministro Marco Aurélio Buzzi, concede às plataformas digitais até a noite de terça‑feira, 13, para cumprir a ordem, sob pena de medidas coercitivas.
Contexto da divulgação e a falsificação do vídeo
O conteúdo enganoso circulou amplamente nos perfis de políticos da direita, apresentando uma mulher supostamente consumindo cocaína em plena Avenida Paulista. A legenda sugeria que a cena ocorrera durante um ato pró‑Lula, criando a impressão de que manifestantes da esquerda estariam envolvidos em consumo de drogas.
Investigações posteriores revelaram que a gravação foi feita no Chile, um dia antes do evento em São Paulo, e que a mulher não tinha qualquer relação com as manifestações brasileiras. A montagem foi inserida em um vídeo editado, que misturou imagens reais da avenida com cenas de consumo de entorpecentes, configurando uma narrativa eleitoral enganosa.
Além do vídeo, outras peças de desinformação foram compartilhadas pelos mesmos perfis, como imagens manipuladas por inteligência artificial que mostravam supostas serventes públicas limpando pichações nas estações de metrô. Essas criações visam desqualificar a oposição e gerar repercussão negativa nas redes.
Decisão judicial e consequências para os envolvidos
O ministro Marco Aurélio Buzzi analisou a petição apresentada pelo TSE e concluiu que a divulgação do material configurava “grave manipulação por descontextualização”. Por esse motivo, o magistrado indeferiu o pedido de indisponibilização do perfil “Sociedade em fatos”, mas proibiu a nova divulgação de conteúdo “substancialmente semelhante ou equivalente”.
Os políticos citados na decisão que devem excluir o vídeo são:
- Flávio Bolsonaro (senador, PL‑RJ)
- Carlos Viana (candidato a senador, PL‑MG)
- Pablo Marçal (coach, Pros‑SP)
- Nikolas Ferreira (deputado, PL‑MG)
- Gustavo Gayer (deputado, PL‑GO)
- Carla Zambelli (deputada, PL‑SP)
Cada um deles tem 24 horas, contadas a partir da publicação da decisão, para remover o vídeo das suas contas. Caso não cumpram o prazo, o TSE poderá expedir novos ofícios exigindo que as próprias plataformas – Meta (Facebook, Instagram, WhatsApp) e X (Twitter) – retirem o conteúdo.
O ministro ressaltou que a gravidade aumenta quando a imagem é acompanhada de afirmações generalizantes sobre consumo de drogas e de apelo eleitoral explícito, pois isso pode influenciar a opinião pública de forma indevida.
Outras manipulações digitais na campanha de Flávio Bolsonaro
Além do vídeo sobre cocaína, a campanha de Flávio Bolsonaro divulgou uma imagem forjada produzida com inteligência artificial. A montagem mostra uma senhora idosa de pele negra supostamente limpando os vidros da estação Trianon‑Masp, após a pichação “Bolsonaro Fascista” e “Não passarão”.
A pichação é real, mas a figura da servidora pública foi inserida digitalmente. A ferramenta de checagem SIGNAIP apontou 84% de probabilidade de uso de IA na imagem, indicando que a manipulação é sofisticada o suficiente para confundir a percepção humana.
Caroline Nunes, criadora da plataforma InspireIP, explicou que a combinação de elementos fotográficos genuínos com adições artificiais eleva o índice de detecção, mas ainda deixa margem para dúvidas, o que reforça o perigo da desinformação visual.
Desde a segunda‑feira, 12, a montagem foi compartilhada pelo canal oficial “Tropa do Flávio” no WhatsApp, acumulando mais de 11.600 visualizações. Até o momento da publicação, o conteúdo ainda estava disponível, indicando que a ordem judicial ainda não foi integralmente cumprida.
Especialistas em comunicação digital alertam que a disseminação de imagens manipuladas, sem transparência sobre sua origem, dificulta a verificação de fatos e alimenta um ambiente de desconfiança entre eleitores.
O VEJA tentou contato com a equipe de campanha de Flávio Bolsonaro, mas não obteve resposta até a data da reportagem, o que demonstra a resistência de alguns atores políticos em colaborar com processos de checagem e correção de informações.
Em síntese, a ação do TSE representa um marco no combate à desinformação eleitoral no Brasil, ao estabelecer limites claros para a divulgação de conteúdo enganoso e ao responsabilizar diretamente os agentes políticos que o propagam.








