Um colapso em uma mina de ouro artesanal no sul do Sudão deixou dezenas de mortos na madrugada de 15 de maio, segundo informações de grupos paramilitares locais. O incidente ocorreu nas proximidades da cidade de El‑Nahud, em Kordofan Ocidental, e já contabiliza mais de oitenta vítimas fatais e cinquenta feridos. As equipes de resgate continuam trabalhando sob condições precárias para localizar possíveis sobreviventes.
Causas e contexto da mineração artesanal
A mineração de ouro em áreas informais tem se tornado uma alternativa de renda para milhares de sudaneses desde o início da guerra civil que eclodiu em abril de 2023. O conflito entre o Exército sudanês e as Forças de Apoio Rápido (FAR) transformou o ouro em moeda de guerra, financiando a compra de armas e o sustento de milícias.
Essas operações são realizadas sem planejamento técnico, usando ferramentas simples como picaretas, baldes e bombas improvisadas. A falta de regulamentação e a escassez de inspeções de segurança criam um ambiente propício a acidentes graves.
Os poços de extração costumam ser escavados próximos uns dos outros, o que aumenta o risco de colapso em cadeia. Quando um túnel cede, a pressão se transmite aos vizinhos, provocando desabamentos simultâneos.
- Escavações profundas sem suporte adequado;
- Uso de explosivos improvisados para romper rochas;
- Ausência de monitoramento geotécnico;
- Concentração de trabalhadores em áreas vulneráveis.
Além disso, a instabilidade política dificulta a presença de órgãos de controle. As autoridades oficiais têm pouca capacidade de fiscalizar regiões controladas pelas FAR, que administram a mineração de forma paralela ao Estado.
Detalhes do colapso e resposta das autoridades
Na terça‑feira, 15 de maio, os poços da mina de Al‑Zaraa começaram a desabar repentinamente. Testemunhas relataram que o chão tremeu e grandes blocos de terra caíram sobre os trabalhadores que ainda estavam na superfície.
Al‑Amin Suleiman, minerador que estava no local, descreveu a cena como “um terremoto de terra”. Segundo ele, os poços eram tão próximos que o desabamento de um imediatamente derrubou os vizinhos, aprisionando dezenas de pessoas sob os escombros.
A fonte anônima das FAR, que controla a região, informou que as equipes de resgate foram mobilizadas imediatamente, mas enfrentam sérias limitações. Ferramentas rudimentares, como pás e picaretas, são usadas para escavar os destroços, enquanto lanternas improvisadas iluminam os túneis escuros.
Os grupos paramilitares declararam que ainda há um número indeterminado de vítimas soterradas e que o número de mortos pode subir. A falta de equipamentos de salvamento avançados, como máquinas de corte hidráulico, dificulta a localização rápida de possíveis sobreviventes.
Organizações humanitárias internacionais solicitaram acesso à área para prestar assistência médica e psicológica, mas a insegurança no território tem retardado a chegada de ajuda especializada.
Impactos humanos e econômicos
O saldo oficial aponta 82 mortos e 50 feridos, mas especialistas alertam que o número real pode ser maior, já que muitas famílias ainda não conseguiram registrar os desaparecidos. A perda de trabalhadores experientes afeta ainda mais a produção de ouro na região, que já é limitada.
Para as famílias das vítimas, o desastre significa a perda da principal fonte de renda. Em comunidades onde o desemprego é crônico, o ouro artesanal representa a única alternativa de sustento, ainda que arriscada.
O colapso também evidencia o ciclo vicioso da economia de guerra. O ouro extraído financia a compra de armamentos, perpetuando o conflito que, por sua vez, empurra mais pessoas para a mineração informal.
Além do impacto imediato, há consequências de longo prazo para a saúde pública. A exposição a poeira de sílica, mercúrio e outros contaminantes químicos pode gerar doenças respiratórias e neurológicas entre os sobreviventes.
O governo central, já fragilizado, tem dificuldade de responder de forma eficaz. Enquanto isso, as FAR continuam a exercer controle sobre a mineração, coletando parte dos lucros e usando-os para reforçar suas fileiras.
Analistas apontam que a solução passa por um acordo político que ponha fim ao conflito armado, seguido de políticas de regularização da mineração artesanal. Programas de formalização, treinamento em segurança e acesso a equipamentos adequados poderiam reduzir drasticamente a frequência de tragédias como esta.
Entretanto, a realidade no terreno mostra que, enquanto houver guerra, a mineração informal permanecerá como uma atividade de risco extremo, alimentando tanto a economia de guerra quanto o sofrimento humano.








