Na manhã da terça‑feira, 22 de setembro de 2024, António Guterres abriu a 81ª Assembleia Geral da ONU em Nova Iorque, anunciando sua saída ao final do ano e apontando para uma profunda crise na organização.
Em seu discurso de despedida, o líder português destacou quatro grandes testes que a humanidade enfrenta: paz, desigualdade, clima e inteligência artificial.
Desafios globais apontados por Guterres
Guterres enumerou os principais obstáculos que, segundo ele, definirão o futuro da civilização nos próximos anos.
- Paz: conflitos armados em diferentes regiões continuam a gerar perdas humanas e deslocamentos massivos.
- Desigualdade: a disparidade econômica entre países ricos e pobres se ampliou, ameaçando a coesão social.
- Clima: eventos climáticos extremos se intensificam, exigindo ação coordenada e urgente.
- Inteligência Artificial: a tecnologia avança rapidamente, trazendo riscos de uso indevido e impactos sociais ainda desconhecidos.
Para cada um desses pontos, o secretário‑geral ressaltou a necessidade de cooperação internacional e de políticas públicas robustas.
Crise institucional da ONU e a necessidade de reforma
Ao se dirigir a mais de cem chefes de Estado e de governo reunidos, Guterres reconheceu que a ONU atravessa um período de profunda crise institucional.
Ele afirmou que, ao longo de quase dez anos à frente da organização, viu um aumento de conflitos e uma erosão do respeito ao direito internacional.
Segundo o discurso, a estrutura atual da ONU não acompanha as transformações rápidas do cenário global, o que compromete sua eficácia e legitimidade.
Guterres propôs, portanto, uma reforma ampla que inclua:
- Revisão dos processos de decisão no Conselho de Segurança;
- Fortalecimento dos mecanismos de prevenção de conflitos;
- Modernização dos sistemas de financiamento e transparência;
- Ampliação da participação de países emergentes e da sociedade civil.
Ele destacou que essas mudanças são essenciais para que a ONU volte a ser um agente relevante na solução de crises internacionais.
Inteligência artificial: alerta e perspectivas
Um dos trechos mais impactantes do discurso foi o alerta sobre a inteligência artificial (IA).
Guterres descreveu a IA como “uma das maiores ameaças para a humanidade”, caso seu desenvolvimento não seja acompanhado por regulações éticas e de segurança.
Ele pediu que a comunidade internacional estabeleça freios claros, evitando que algoritmos sejam usados para manipular informações, violar direitos humanos ou intensificar a corrida armamentista.
Para ilustrar a urgência, o secretário‑geral citou exemplos de:
- Deepfakes que podem desestabilizar processos eleitorais;
- Sistemas de vigilância automatizados que ameaçam a privacidade;
- Armas autônomas que operam sem supervisão humana.
Guterres concluiu que a ONU deve liderar a criação de normas globais que garantam que a IA seja desenvolvida de forma responsável, segura e alinhada aos valores humanos.
Ele encerrou seu discurso reforçando que, apesar dos desafios, a comunidade internacional tem a capacidade de transformar a crise em oportunidade, desde que haja vontade política e colaboração efetiva.








