Uma reunião prevista para discutir as tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos ao Brasil será observada como termômetro da relação entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, após as eleições de 2024 nos dois países. O encontro, ainda incerto, foi mencionado nesta terça‑feira, 3 de novembro, durante o programa VEJA em Foco, transmitido ao vivo. O ex‑embaixador Rubens Barbosa, que atuou em Washington e Londres, analisou os possíveis desdobramentos.
O que está em jogo nas negociações tarifárias
As tarifas que Washington aplicou a produtos brasileiros – como aço, alumínio e alguns bens agropecuários – têm gerado pressão sobre exportadores e consumidores de ambos os lados. Segundo Barbosa, a reunião tem o potencial de reduzir ou reconfigurar esses impostos, trazendo alívio para setores vulneráveis da economia nacional.
Para a indústria brasileira, a redução das tarifas pode significar maior competitividade no mercado norte‑americano, aumento de investimentos e preservação de empregos. Já para os consumidores dos EUA, a medida pode baixar o preço de alimentos e matérias‑primas importadas do Brasil.
No Brasil, o governo Lula tem buscado equilibrar a defesa de interesses nacionais com a necessidade de manter boas relações comerciais. A agenda de negociação, portanto, se insere em um contexto político interno de preparação para as próximas eleições presidenciais.
Sinais de mudança na postura americana
Barbosa destaca que o Departamento de Estado, mais do que a Casa Branca, será o protagonista na condução das tratativas comerciais. A agência tem demonstrado disposição para manter canais de diálogo, mesmo diante de uma postura cautelosa dos assessores de Trump.
A equipe de Trump tem evitado aprofundar atritos políticos com o Brasil, sobretudo após a visita de Flávio Bolsonaro aos EUA, que gerou debates internos nos dois países. Essa cautela pode abrir espaço para uma abordagem mais pragmática nas questões econômicas.
O ex‑embaixador também ressalta que a diplomacia americana tem preferido concentrar esforços em temas de segurança, como a guerra no Irã, ao invés de confrontar diretamente o governo Lula. Essa estratégia pode refletir um cálculo de custo‑benefício que privilegia a estabilidade comercial.
Se a reunião for confirmada, ela pode sinalizar um afastamento da retórica protecionista e um retorno ao pragmatismo que marcou as relações bilaterais nos anos anteriores.
Cenários possíveis após as eleições nos EUA
Um dos indicadores mais claros será a realização ou o cancelamento do encontro. Caso a reunião aconteça, espera‑se uma atmosfera de negociação mais tranquila, com possíveis concessões de ambas as partes.
Por outro lado, o cancelamento poderia indicar uma mudança de dinâmica, talvez um endurecimento da postura americana ou um redirecionamento de atenção para outras prioridades internas.
- Reunião confirmada – sinal de continuidade e pragmatismo nas relações comerciais.
- Reunião cancelada – indício de tensão ou reavaliação estratégica por Washington.
- Resultado das eleições legislativas americanas – pode reduzir a capacidade de Trump de avançar sua agenda, mas não garante mudança automática na política externa.
Barbosa aponta que, mesmo que os democratas conquistem as duas casas do Congresso, o impacto imediato sobre o Brasil pode ser limitado. O Congresso pode pressionar o Executivo a focar em questões domésticas, reduzindo a energia dedicada a negociações tarifárias.
Uma eventual vitória democrática pode ainda enfraquecer a margem de manobra de Trump, que precisaria conciliar demandas internas com a política externa. Contudo, o ex‑embaixador adverte que o Brasil não está entre as prioridades centrais de Washington neste momento.
O conflito com o Irã continua a consumir recursos e atenção da administração americana. Se a guerra se intensificar, o governo dos EUA pode desviar ainda mais foco das relações comerciais com a América Latina.
No cenário interno, investigações parlamentares envolvendo a família Trump podem gerar instabilidade política, influenciando decisões sobre acordos internacionais. Ainda assim, Barbosa recomenda cautela ao associar esses fatores a uma postura mais agressiva contra o Brasil.
Perspectivas de longo prazo para a relação bilateral
O diplomata enfatiza que, apesar das flutuações políticas, o Brasil mantém um papel relevante na estratégia de diversificação de fornecedores dos EUA. A agricultura, a energia renovável e a tecnologia são áreas que podem sustentar a cooperação mesmo em períodos de tensão.
Para o Partido Republicano, a perda da maioria nas próximas eleições pode dificultar a manutenção da Casa Branca até 2028. Ainda assim, a base de apoio a Trump permanece forte, o que pode preservar certos elementos de sua agenda externa.
Fatores econômicos internos dos Estados Unidos – como o aumento do custo de vida, a inflação de alimentos e gasolina, e a crise migratória – também influenciam a percepção americana sobre parceiros comerciais. Esses elementos podem gerar pressão para acordos que beneficiem o consumidor americano, inclusive com o Brasil.
Em suma, a reunião sobre tarifas funciona como um barômetro imediato, mas a trajetória da relação Brasil‑EUA dependerá de múltiplas variáveis, incluindo resultados eleitorais, questões de segurança internacional e dinâmicas internas de cada país.








