No dia 30 de setembro, Rashid participou do programa g1 Ouviu, onde analisou a atual cena do rap nacional e refletiu sobre o distanciamento dos valores que sustentam o movimento hip hop. O rapper, compositor e roteirista de 38 anos, trouxe à tona questões de memória, identidade e resistência cultural. A entrevista, transmitida em diversas plataformas de podcasts, revelou momentos marcantes da trajetória do artista.
A cena do rap nacional e a perda de valores
Rashid alertou que o rap brasileiro parece estar se afastando dos princípios que deram origem ao movimento, como a luta contra a opressão, a valorização da comunidade e a denúncia das desigualdades. “Assinar nossa permissão para o esquecimento” foi a frase que ele usou para descrever esse retrocesso, indicando que a falta de coerência pode levar o gênero ao anonimato.
Ele enumerou alguns valores que, segundo ele, ainda deveriam estar no coração das letras e das batalhas de rima:
- Conscientização social
- Resistência cultural
- Solidariedade entre periferias
- Autenticidade nas narrativas
Para o artista, a retomada desses pilares exige um esforço coletivo, tanto de MCs quanto de produtores, gravadoras e do público que consome o conteúdo. “Quando a comunidade volta a se reconhecer nas palavras, a música ganha força novamente”, afirmou.
Memória, referências e raízes de Rashid
Durante a conversa, Rashid destacou a importância de manter viva a memória do movimento hip hop, conectando-a ao território onde nasce a mensagem. Ele ressaltou que a história dos que vieram antes ainda ecoa nas ruas, nos blocos e nos becos onde o rap se faz presente.
Um dos momentos mais emotivos da entrevista foi quando ele citou Milton Nascimento como uma das maiores influências pessoais. “Minha avó materna conheceu o Milton. Quando descobri isso, meu amor virou fanatismo. Não mexe com meu Milton Nascimento!”, declarou com entusiasmo.
Rashid também dividiu sua infância entre a periferia urbana de São Paulo e o interior rural de Minas Gerais, apontando diferenças marcantes:
- São Paulo: cinza, falta de dinheiro, ritmo acelerado.
- Minas Gerais: roça, amigos na plantação de cana, alambiques, pobreza distinta.
Essas duas realidades moldaram sua visão de mundo e influenciaram a forma como ele escreve, mesclando a dureza da metrópole com a simplicidade do campo.
Desafios no Lollapalooza e a superação da pressão
Rashid relembrou os dois cancelamentos do Lollapalooza causados por questões climáticas e como quase recusou o convite na terceira tentativa. O medo de se tornar “piada eterna” o fez hesitar, mas o apoio de uma amiga o fez aceitar o palco em 2023.
Ao subir ao palco, o rapper sentiu a energia da plateia como nunca antes. “Quando subo no palco e vejo aquele público, penso: nenhum daqueles anos teria sido assim, tão cheio. Tive anos pra me preparar, além de ser o artista mais anunciado no line‑up”, disse.
Ele comparou a sensação de sair do palco ao Brasil vencendo a Copa, indicando que o momento representou uma vitória coletiva para a cena nacional de rap.
Início de carreira, MySpace e a batalha pela atenção
No início da trajetória, Rashid divulgava suas músicas pelo MySpace, enfrentando a difícil tarefa de chamar a atenção em meio a milhares de artistas emergentes. Ele explicou que a estratégia era colocar a música “na mesa” e fazer com que o ouvinte escolhesse aquela faixa entre tantas opções.
Um marco importante foi alcançar 5 mil reproduções, que ele descreveu como seu “Grammy pessoal”. “Não eram meus plays, eram de outras pessoas. Na época, era como colocar uma carta na garrafa e jogar no mar”, recordou.
Hoje, Rashid reconhece que tem uma fanbase consolidada, mas enfatiza que o caminho ainda requer acreditar na música e na rua. “Antes, era acreditar muito na música e muito na rua. Você pode ouvir o g1 Ouviu no g1, no Spotify, no Castbox, no Google Podcasts ou no Apple Podcasts. Assine ou siga o g1 Ouviu para ser avisado sempre que houver novo episódio no ar”, concluiu.








