Um estudo realizado pelo Centro Cristão de Reflexão e Diálogo (CCRD) revelou que quase 70% da população cubana está em situação de pobreza, dados divulgados em setembro de 2024, na capital Havana. A pesquisa aponta que, pela primeira vez em seis décadas, a maioria dos habitantes da ilha enfrenta dificuldades para suprir necessidades básicas. O levantamento traz à tona a profundidade da crise econômica que se arrasta há anos.
Contexto da crise econômica em Cuba
A economia cubana tem sofrido um declínio contínuo desde 2019, quando a combinação de baixa produção interna e a perda de receitas com turismo começou a pressionar as finanças públicas. Nos últimos cinco anos, a escassez de divisas e a dependência de importações de energia agravaram a situação, gerando inflação acelerada e aumento do custo de vida. A população sente o impacto diariamente, com filas para racionamento e cortes de energia que se tornaram rotineiros.
O preço da cesta básica, que inclui alimentos essenciais como arroz, feijão, carne e leite, disparou desde o final de 2023. Enquanto o salário médio mensal ronda os 7.000 pesos cubanos (cerca de 51,5 reais), o custo de uma cesta representativa para uma pessoa chega a 191 reais, segundo estimativas de economistas locais. Essa disparidade cria um abismo entre renda e despesas, empurrando milhões para a vulnerabilidade.
Além da inflação, a escassez de produtos importados, especialmente medicamentos e bens de consumo duráveis, tem limitado ainda mais o acesso da população a serviços básicos. O governo tenta compensar a falta de recursos com programas de racionamento, mas a eficácia desses mecanismos diminui à medida que a oferta se reduz e a demanda cresce. O cenário se agrava com a falta de investimentos em infraestrutura, que impede a modernização dos setores produtivos.
Detalhes da pesquisa e seus números
Para compor o estudo, o CCRD considerou uma população de 9,7 milhões de habitantes, número superior ao registro oficial de 9,4 milhões, a fim de capturar possíveis subcontagens. A metodologia incluiu entrevistas domiciliares, análise de gastos familiares e comparação com o custo da cesta básica. Os pesquisadores também levaram em conta a renda média declarada e o acesso a serviços públicos como saúde e educação.
Os resultados apontam que 66% da população cubana, ou aproximadamente 6,4 milhões de pessoas, vivem em situação de pobreza econômica. Esse percentual representa um salto significativo em relação à estimativa de 45% feita em meados de 2025, indicando um agravamento rápido nos últimos anos. A pesquisa destaca que a maioria dos afetados reside em áreas urbanas, onde o custo de vida é ainda mais elevado.
O estudo também revelou que a renda média da população não cobre nem metade dos custos necessários para uma alimentação mínima adequada. Enquanto o salário médio mensal é de 7.000 pesos (cerca de 51,5 reais), o gasto mensal recomendado para alimentação básica ultrapassa 1.100 pesos, ou 191 reais, deixando um déficit que força muitas famílias a recorrer a mercados informais ou a racionamento extremo.
O economista cubano Omar Everleny Pérez, consultor da pesquisa, ressaltou que a situação é “crítica e requer intervenções urgentes”. Segundo ele, a incapacidade de comprar alimentos suficientes eleva o risco de desnutrição, especialmente entre crianças e idosos. Pérez também apontou que a falta de acesso a energia elétrica constante dificulta a produção doméstica de alimentos, agravando ainda mais a insegurança alimentar.
Impactos das sanções e perspectivas futuras
As sanções impostas pelos Estados Unidos, intensificadas a partir de janeiro de 2024 sob a administração Trump, visam pressionar o governo cubano a adotar reformas políticas e econômicas alinhadas aos interesses de Washington. Essas medidas restringiram a importação de petróleo, principal fonte de energia da ilha, e limitaram o acesso a financiamento internacional.
Como consequência direta, o país tem enfrentado apagões frequentes, já que a escassez de combustível impede o funcionamento de usinas e geradores. O setor de turismo, que antes era um dos pilares da economia cubana, também sofreu forte retração, com a saída de empresas estrangeiras e a queda no número de visitantes. A combinação desses fatores intensificou a crise econômica, reduzindo ainda mais as receitas do governo.
- Redução das importações de petróleo, provocando apagões e interrupções nos serviços públicos.
- Queda drástica no turismo, com menos de 2 milhões de visitantes em 2024, comparado a 4,5 milhões em 2019.
- Saída de empresas estrangeiras do setor de energia e telecomunicações, gerando perda de empregos.
- Aumento da informalidade econômica, com crescimento de mercados paralelos e trocas de moeda.
O governo cubano, que historicamente não divulga estatísticas oficiais sobre pobreza, tem evitado comentar os números recentes, preferindo focar em mensagens de solidariedade e resistência. No entanto, a realidade nas ruas de Havana e outras cidades é cada vez mais visível: filas extensas para ração de alimentos, moradores em busca de água potável em recipientes improvisados e um aumento de manifestações espontâneas por melhores condições de vida.
Especialistas apontam que, sem uma mudança nas políticas internas ou um alívio nas sanções, a situação pode se deteriorar ainda mais nos próximos anos. Algumas análises sugerem que a ilha precisará de um plano de reestruturação econômica que inclua a liberalização parcial de mercados, incentivos ao investimento estrangeiro e a reforma do sistema de racionamento. Outros defendem que a pressão internacional pode levar a negociações diplomáticas que resultem em um relaxamento parcial das sanções.
Em resumo, o estudo do CCRD traz à luz a dimensão humana da crise cubana, revelando que quase sete em cada dez cubanos enfrentam pobreza em um contexto de sanções, escassez e deterioração de serviços públicos. A situação exige atenção internacional e políticas que consigam equilibrar pressão política com a necessidade urgente de aliviar o sofrimento da população.








