O primeiro‑ministro do Canadá, Mark Carney, adotou um tom mais incisivo contra o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nas últimas semanas, intensificando o clima de confronto entre Ottawa e Washington. O endurecimento da postura ocorre em meio a uma série de medidas comerciais que entram em vigor a partir de 29 de setembro, afetando setores estratégicos de ambos os países.
Contexto da escalada diplomática
Desde que assumiu o cargo em 2025, Carney buscou evitar confrontos diretos com Trump, apesar das provocações frequentes do presidente americano. Trump chegou a chamar o líder canadense de “governador”, insinuando a possibilidade de transformar o Canadá no 51º estado dos EUA, além de rotulá‑lo como “desagradável” e “ingrato”.
Essas trocas de farpas mantiveram‑se em um nível relativamente brando durante os primeiros meses de governo, mas a situação mudou rapidamente quando questões comerciais começaram a se intensificar.
Uso da ironia como ferramenta política
Em um discurso ao Partido Liberal, em Ottawa, Carney passou a usar a ironia de forma mais frequente. Ele imitou os gestos característicos de Trump ao comentar um novo projeto de energia limpa, sinalizando que não tem medo de expor as inconsistências do presidente norte‑americano.
Além disso, o premiê respondeu de forma mais dura a provocações de membros do governo dos EUA. Quando o secretário de Defesa, Pete Hegseth, zombou de participantes de um programa juvenil de cadetes canadenses, Carney exigiu que Washington cessasse os “memes” e as provocações.
“Parem com os memes, parem de provocar, parem de tentar parecer durões”, afirmou Carney a jornalistas, numa mensagem clara dirigida ao governo Trump.
Repercussões comerciais e tarifárias
A mudança de tom de Carney coincide com a deterioração das relações comerciais entre os dois países. A partir de 29 de setembro, os Estados Unidos vão proibir a importação de produtos canadenses como laticínios, motocicletas e a maior parte das bebidas alcoólicas. A medida, anunciada no início do mês, amplia a guerra comercial entre Washington e Ottawa.
Um dia antes, o Canadá impôs tarifas de 27 bilhões de dólares canadenses (cerca de US$ 20 bilhões) sobre produtos americanos, como parte de uma retaliação às políticas protecionistas de Trump.
A justificativa do governo americano baseia‑se na Seção 338 da Lei Tarifária de 1930, que permite ao presidente barrar produtos de países considerados discriminatórios contra o comércio dos EUA.
- Produtos canadenses proibidos: laticínios, motocicletas, bebidas alcoólicas.
- Tarifas canadenses impostas: US$ 20 bilhões em produtos americanos.
- Base legal americana: Seção 338 da Lei Tarifária de 1930.
No ano passado, os dois países movimentaram quase US$ 900 bilhões em comércio bilateral. As novas restrições foram anunciadas depois que negociações para um acordo comercial fracassaram no mês anterior.
O governo dos EUA rejeita a avaliação de que a escalada possa prejudicar empresas americanas, alegando que o impacto será maior para o Canadá.
Influência da proposta europeia e a reação de Trump
Na semana passada, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propôs que Ottawa se torne um “membro associado” da União Europeia. Carney respondeu indiretamente a Trump, afirmando que não está propondo “um terceiro bloco para nos tornarmos um rival de superpotência apenas com melhores modos”.
Horas antes, Trump ameaçou impor novas tarifas contra o bloco europeu caso considerasse a proposta da UE “hostil”. “Se eles fizerem isso, se eu achar que é um ato hostil, vou impor tarifas muito altas ou interromper o comércio com a Europa em muitos produtos”, declarou o presidente americano durante deslocamento para um evento na Carolina do Norte, chamando a proposta de “risível”.
Opinião pública canadense em mudança
Ao mesmo tempo que as tensões diplomáticas aumentam, cresce no Canadá a desconfiança em relação aos Estados Unidos. Um levantamento recente da Leger mostrou que 41 % dos canadenses passaram a considerar o país vizinho um inimigo.
Esse sentimento reflete não apenas as disputas comerciais, mas também uma percepção de que a política externa americana está cada vez mais voltada para o nacionalismo e a confrontação.
Analistas apontam que a postura mais firme de Carney pode ser vista como uma tentativa de reforçar a soberania canadense e de proteger setores estratégicos da economia nacional.
Entretanto, críticos argumentam que a retórica agressiva pode dificultar ainda mais a retomada de negociações comerciais, prolongando o período de incerteza para empresas de ambos os lados da fronteira.
Perspectivas para o futuro
Especialistas em relações internacionais acreditam que a situação poderá evoluir de duas maneiras principais. Primeiro, um possível acordo de concessões mútuas que reduza as tarifas e restabeleça a cooperação econômica. Segundo, a continuação de uma guerra comercial de baixa intensidade, que poderia levar a medidas ainda mais restritivas.
Enquanto isso, Carney tem reforçado a necessidade de diversificar os parceiros comerciais do Canadá, buscando fortalecer laços com a União Europeia e com mercados da Ásia‑Pacífico.
O futuro das relações Canadá‑Estados Unidos dependerá, em grande parte, da capacidade dos líderes de encontrar um terreno comum que satisfaça os interesses de segurança nacional, desenvolvimento econômico e a vontade popular de ambos os povos.








