Na manhã da segunda‑feira, 28 de setembro, o pastor Silas Malafaia e outras treze lideranças evangélicas divulgaram uma nota pública em defesa do candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL). O documento, emitido pelo Conselho Interdenominacional dos Ministros Evangélicos do Brasil (CIMEB), rebate a alegação de que o senador pretende retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
Contexto da polêmica e a resposta evangélica
O que desencadeou a controvérsia foi a circulação nas redes sociais de mensagens que vinculavam Flávio Bolsonaro a um suposto projeto legislativo para mudar a designação de Nossa Senhora Aparecida. As publicações afirmavam que, caso eleito, o candidato removeria o reconhecimento da santa como padroeira, gerando forte reação entre católicos e evangélicos.
Em resposta, o CIMEB classificou a informação como falsa e acusou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seus apoiadores de usar o tema para alimentar uma disputa religiosa. Segundo o grupo, a estratégia visa “atingir um adversário político” e criar uma “guerra religiosa entre católicos e evangélicos”.
O documento ainda enfatiza que evangélicos e católicos podem conviver em paz, reforçando a necessidade de diálogo interconfessional em tempos de polarização política.
Quem assinou a nota e quais são as alegações
Além de Silas Malafaia, a nota conta com a assinatura de líderes de diferentes denominações, totalizando quatorze nomes. A lista demonstra a amplitude do apoio evangélico ao candidato e a preocupação com a suposta difamação.
- César Augusto – Igreja Fonte de Vida
- Robson Rodovalho – Sara Nossa Terra
- Estevam Hernandes – Renascer em Cristo
- Samuel Câmara – Assembleia de Deus
- Galdino Júnior – Assembleia de Deus
- Jabes de Alencar – Assembleia de Deus
- Teo Hayashi – Zion Church
- Cláudio Duarte – Ministério Projeto Recomeçar
- Luiz Hermínio – Missões Evangelísticas Vinde Amados Meus
- Ezequiel Teixeira – Igreja Projeto Vida Nova
- Paulo Roberto – (denominação não especificada)
- Marcus Gregório – (denominação não especificada)
- Simonton Araújo – (denominação não especificada)
O texto da nota afirma que não há qualquer articulação entre líderes evangélicos para cancelar feriados ou cultos de outras religiões. Ao contrário, os signatários denunciam a tentativa de manipular a fé para fins eleitorais.
Origem da informação sobre a Padroeira e o posicionamento de Flávio
A suposta proposta de mudar o título de Nossa Senhora Aparecida tem origem em um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado Victório Galli. O projeto, que visava alterar o reconhecimento da santa, foi arquivado no ano seguinte e nunca chegou ao plenário.
Não há registro de que Flávio Bolsonaro tenha apresentado iniciativa semelhante. O próprio candidato negou a acusação, afirmando que nunca propôs retirar o título da padroeira.
Entretanto, a controvérsia ganhou outra camada quando, em agosto, Flávio divulgou um vídeo nas redes sociais prometendo que, se eleito, “decretará que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Embora a fala seja autêntica, ela não contém proposta de mudar o status de Nossa Senhora Aparecida.
Especialistas em direito constitucional ressaltam que, mesmo que um presidente queira alterar o reconhecimento de uma padroeira, tal mudança exigiria ação legislativa e não poderia ser feita por simples decreto.
Desdobramentos judiciais e repercussão nas redes
A disputa chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), onde o ministro André Mendonça determinou a remoção de publicações que apresentavam como verdade a informação sobre a retirada do título da santa. A medida visava coibir a disseminação de notícias falsas durante o período eleitoral.
Posteriormente, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), revogou a decisão em relação a um conteúdo específico do humorista Antonio Tabet. O entendimento foi de que a remoção não estava suficientemente justificada, reforçando a importância da liberdade de expressão, ainda que limitada por normas eleitorais.
Nas redes sociais, a nota do CIMEB foi amplamente compartilhada por perfis evangélicos, gerando milhares de comentários de apoio ao candidato e críticas ao governo Lula. Ao mesmo tempo, grupos católicos alertaram para a necessidade de manter a identidade religiosa do país sem politizar a fé.
Analistas de comunicação apontam que a estratégia de usar a religiosidade como ferramenta de campanha pode ter efeitos duradouros na percepção do eleitorado, sobretudo em um país onde mais da metade da população se declara cristã.
Enquanto o processo eleitoral avança, a polêmica demonstra como temas sensíveis, como a devoção a Nossa Senhora Aparecida, podem ser mobilizados para influenciar o debate público. O desafio, para os atores políticos, será equilibrar a liberdade religiosa com a responsabilidade de evitar a instrumentalização da fé.








