Em 2024, durante o ITForum Praia do Forte, Artur Negrão, cofundador e CEO da Salvy, revelou que a operadora está comercializando linhas telefônicas exclusivas para agentes de inteligência artificial. O anúncio ocorreu no Rio de Janeiro, onde a empresa destacou que mais de 15% de seus clientes utilizam esses números tanto para funcionários humanos quanto para softwares autônomos.
Como funciona a linha móvel para agentes de IA
A Salvy oferece um serviço que permite que um agente de IA faça e receba chamadas, envie e receba mensagens de texto (SMS) e se conecte ao WhatsApp. Essa infraestrutura transforma o software em um interlocutor real, capaz de interagir com clientes, parceiros e outros sistemas.
Essas linhas são ativadas sob contrato empresarial, com CNPJ verificado, e seguem as mesmas regras regulatórias que um número tradicional. O titular da linha é sempre a empresa, que responde legalmente por qualquer comunicação realizada.
Para garantir segurança e conformidade, a Salvy realiza um processo de due diligence em duas etapas: primeiro, um rigoroso KYB (Know Your Business) que verifica a estrutura societária e a finalidade de uso; depois, monitoramento contínuo de tráfego, volume atípico e taxa de reclamações, com possibilidade de suspensão imediata.
Casos de uso reais no mercado brasileiro
Empresas como o iFood já adotaram a solução. Com 8,5 mil funcionários e cerca de 14 mil agentes de IA, a plataforma de delivery utiliza linhas Salvy para que seus bots atendam pedidos, enviem notificações e realizem chamadas de confirmação.
Outro exemplo citado por Negrão é a Lastro, startup que fornece IA para corretores de imóveis. Cada corretor recebe um número dedicado, permitindo que o assistente virtual agende visitas, envie documentos e converse diretamente com clientes via telefone ou WhatsApp.
Além dos setores de alimentação e imobiliário, empresas de tecnologia estão criando agentes internos para automatizar processos internos, como suporte técnico, agendamento de reuniões e coleta de feedback. Nessas situações, a linha telefônica é essencial para que o agente execute tarefas que exigem interação humana.
Perspectivas de crescimento e desafios regulatórios
Negrão estima que nos próximos anos milhões de novas linhas serão ativadas para agentes de IA, impulsionadas por três fatores principais:
- Integração total na força de trabalho: agentes passarão a ser componentes permanentes nas equipes, exigindo comunicação direta com clientes e fornecedores.
- Especialização por disciplina: cada departamento terá agentes configurados para funções específicas, como vendas, suporte ou compliance.
- Necessidade de contato com o mundo real: tarefas que envolvem verificação de identidade, confirmação de pagamento ou agendamento presencial demandam chamadas telefônicas ou mensagens de texto.
Do ponto de vista regulatório, nada mudou: a Anatel continua exigindo titularidade empresarial, contrato assinado e fatura mensal. A diferença está na camada de monitoramento adicional que a Salvy implementou para detectar usos indevidos ou fraudes.
O processo de ativação inclui verificação de identidade da empresa, análise de risco e definição de limites de volume. Após a ativação, algoritmos de inteligência artificial analisam padrões de uso em tempo real, sinalizando picos anormais que possam indicar abuso.
Essas medidas visam proteger tanto as empresas quanto os consumidores, evitando que números de IA sejam usados para golpes, phishing ou spam. Caso seja identificada alguma irregularidade, a Salvy tem autoridade para suspender a linha imediatamente, garantindo conformidade com as normas da Anatel.
Impacto econômico e futuro da telecomunicação para IA
A comercialização de linhas telefônicas para agentes de IA abre um novo segmento de receita para operadoras. A Salvy já registra crescimento de dois dígitos ao ano, impulsionado pela demanda de setores que buscam automatizar interações com clientes.
Além do faturamento direto, a oferta de infraestrutura cria oportunidades de parcerias com desenvolvedores de IA, plataformas de chatbot e provedores de serviços cloud. Essas alianças permitem a criação de soluções integradas, onde a camada de telecomunicação está embutida no produto final.
Com a expansão do mercado, espera‑se que novas normas sejam propostas para tratar especificamente de linhas atribuídas a agentes autônomos. Enquanto isso, a Salvy mantém seu modelo de compliance como diferencial competitivo, reforçando a confiança das empresas que adotam a tecnologia.
Em síntese, a iniciativa demonstra como a convergência entre telecomunicações e inteligência artificial pode gerar novos fluxos de receita, ao mesmo tempo em que transforma a forma como as organizações se comunicam com seus públicos.








