A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) anunciou nesta terça‑feira (15) a ampliação do acesso ao lenacapavir, medicamento injetável de profilaxia pré‑exposição ao HIV, para 14 países da América Latina e Caribe, incluindo o Brasil. A iniciativa utiliza os Fundos Rotativos Regionais da OPAS para viabilizar a compra em nações que ainda não fazem parte dos acordos de licenciamento voluntário da Gilead Sciences.
Como funciona o lenacapavir e por que ele é relevante
O lenacapavir, comercializado como Sunlenca, é administrado por injeção subcutânea apenas duas vezes ao ano, oferecendo uma alternativa de longa duração às pílulas diárias de PrEP. A dose semestral garante cobertura contínua contra o vírus, reduzindo a necessidade de adesão diária e facilitando a implementação em programas de saúde pública.
Estudos publicados no New England Journal of Medicine demonstraram eficácia próxima de 100% na prevenção de infecção pelo HIV‑1, tanto em mulheres cisgênero na África subsaariana quanto em uma coorte diversificada de mais de 3 mil participantes. Os resultados levaram a Organização Mundial da Saúde (OMS) a incluir o lenacapavir nas diretrizes de 2025 como opção adicional de PrEP.
Acordo entre OPAS e Gilead Sciences
O novo acordo, firmado em 15 de março de 2024, permite que a OPAS adquira o medicamento a preços negociados, destinando-o a países que ainda não têm acesso por meio de licenças voluntárias. A Gilead Sciences comprometeu‑se ainda a iniciar um processo de transferência de tecnologia para o Brasil, visando a produção local em futuro próximo.
Os países contemplados pelo acordo são:
- Brasil
- Argentina
- Colômbia
- Chile
- Peru
- Ecuador
- Bolívia
- Paraguay
- Uruguai
- Guatemala
- Honduras
- El Salvador
- Costa Rica
- Panamá
Essas nações receberão apoio financeiro e logístico para integrar o lenacapavir aos seus programas de prevenção ao HIV, complementando os 24 países que já participam dos acordos de licenciamento voluntário.
Impactos esperados e próximos passos
A aprovação da Anvisa em janeiro de 2024 já habilitou o uso do lenacapavir no Brasil para adultos e adolescentes acima de 12 anos que pesam pelo menos 35 kg e apresentam risco de infecção. A ampliação do acesso regional deve acelerar a redução de novos casos, que em 2023 ultrapassaram 1,3 milhão globalmente.
Além da distribuição do medicamento, a OPAS recomenda a ampliação de testes rápidos de HIV, simplificando o diagnóstico e permitindo que pessoas elegíveis iniciem a profilaxia mais rapidamente. Essa combinação de prevenção química e diagnóstico ágil é vista como essencial para reverter a estagnação observada nos últimos anos.
O programa também prevê monitoramento contínuo da eficácia e da segurança do lenacapavir, com relatórios trimestrais enviados à OMS e ao UNAIDS. Caso os indicadores de adesão e redução de incidência sejam positivos, a OPAS planeja expandir o escopo para outros 10 países da região nos próximos dois anos.
Para o Brasil, a transferência de tecnologia pode significar a produção nacional do lenacapavir, reduzindo custos e fortalecendo a cadeia de suprimentos de medicamentos antirretrovirais. Ainda não há cronograma definitivo, mas a expectativa é que os primeiros lotes produzidos localmente estejam disponíveis a partir de 2026.
Especialistas em saúde pública ressaltam que a combinação de uma dose semestral, alta eficácia e produção local pode transformar a estratégia de prevenção ao HIV na América Latina, aproximando a região da meta da Agenda 2030 de acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública.
Em síntese, a iniciativa da OPAS representa um marco regulatório e operacional que pode mudar o panorama da prevenção ao HIV, oferecendo uma solução prática, segura e escalável para milhões de pessoas em risco.








