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ONU registra mais de mil casos de violência sexual na guerra da Ucrânia

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos divulgou que foram documentados mais de mil casos de violência sexual desde o início da invasão russa à Ucrânia, em fevereiro de 2022, até o final de julho de 2024. O relatório aponta que a maioria desses abusos ocorreu em áreas ocupadas por forças russas e em centros de detenção. A informação foi confirmada em comunicado oficial divulgado na sexta‑feira, 18 de setembro.

Escala e perfil das denúncias

Segundo a pesquisa, 1.004 incidentes de violência sexual foram registrados no período analisado. Desses, 89% foram atribuídos a agentes russos, incluindo militares, funcionários penitenciários e membros dos serviços de segurança nacional. Os 11% restantes envolveram perpetradores ucranianos, sobretudo em contextos de retaliação ou conflito interno.

As vítimas são majoritariamente homens, sobretudo nos campos de detenção onde relatos de abusos são mais frequentes. No entanto, mulheres e crianças também foram alvo de violência sexual, sobretudo em territórios ocupados, o que amplia a gravidade do quadro humanitário.

Responsáveis e contextos dos abusos

Os dados foram coletados a partir de entrevistas confidenciais com centenas de sobreviventes, documentos judiciais e registros oficiais de autoridades ucranianas e internacionais. Danielle Bell, chefe da Missão de Observação dos Direitos Humanos da ONU na Ucrânia, enfatizou que os números divulgados representam apenas uma fração da realidade, devido ao medo de retaliação e à dificuldade de acesso a áreas de combate.

Entre os tipos de violência sexual documentados, destacam‑se:

  • Estupros coletivos e individuais;
  • Mutilação genital;
  • Choques elétricos aplicados aos genitais;
  • Golpes e outras formas de agressão degradante.

Esses atos foram perpetrados tanto em campos de prisioneiros quanto em zonas civis, muitas vezes como forma de intimidação ou punição coletiva. O alto comissário Volker Türk descreveu os episódios como “atos atrozes” que podem se perpetuar enquanto a violência armada permanecer.

Impacto humanitário e respostas internacionais

Além dos abusos sexuais, a guerra já deixou mais de dois milhões de militares mortos ou feridos, conforme estudo do Center for Strategic and International Studies (CSIS). As perdas são desproporcionalmente altas para as forças russas, que contabilizam cerca de 1,4 milhão de baixas, das quais aproximadamente 450 mil são mortes confirmadas.

A Ucrânia, por sua vez, registra entre 525 mil e 625 mil baixas, incluindo entre 125 mil e 150 mil mortos. Esses números são estimativas, já que ambas as partes são acusadas de subnotificar ou de não divulgar oficialmente os balanços.

Organizações de direitos humanos e governos ocidentais têm pressionado por investigações independentes e por mecanismos de responsabilização. A ONU recomenda a criação de comissões de verdade, a proteção de testemunhas e a garantia de acesso humanitário a todas as áreas afetadas.

Desafios na coleta de dados e perspectivas futuras

A coleta de informações sobre violência sexual em zonas de conflito enfrenta obstáculos logísticos, medo das vítimas e restrições de acesso imposta pelos combatentes. A falta de registros oficiais e a destruição de documentos dificultam ainda mais a verificação dos casos.

Especialistas apontam que a tecnologia de satélite, a análise de inteligência de países aliados e a colaboração com ONG locais podem melhorar a precisão dos dados. No entanto, a confiança das comunidades afetadas nas instituições internacionais ainda precisa ser reconquistada.

O alto comissário Türk alertou que, sem medidas concretas, os abusos podem se intensificar à medida que o conflito se arrasta para o seu quinto ano. Ele conclamou a comunidade internacional a agir rapidamente, reforçando a necessidade de assistência médica, psicológica e jurídica para as vítimas.

Em síntese, o relatório da ONU revela um panorama alarmante de violência sexual sistemática, evidenciando a urgência de respostas coordenadas e eficazes. Enquanto o conflito continua, a proteção dos direitos humanos permanece como um dos maiores desafios para a paz duradoura na região.

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