Na sexta‑feira, 4 de julho, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução que oficializa o uso de um novo mapa‑múndi, capaz de representar as dimensões reais dos continentes. A medida, impulsionada por países do Sul Global, visa corrigir as distorções históricas presentes na projeção de Mercator. O voto final contou com 164 aprovações, seis abstenções e um único voto contrário, dos Estados Unidos.
Contexto histórico da projeção de Mercator
A projeção de Mercator foi criada no século XVI pelo cartógrafo belga Gerardus Mercator e rapidamente se tornou padrão em navegação e ensino. Embora útil para traçar rotas marítimas, a projeção inflaciona áreas afastadas do equador, fazendo com que regiões como a Europa e a América do Norte pareçam maiores que a realidade.
Um exemplo clássico dessa distorção é a comparação entre a Groenlândia e a África: no mapa de Mercator, ambos parecem ter áreas semelhantes, embora a África seja aproximadamente 14 vezes maior. Esse efeito visual tem consequências que vão além da geografia, influenciando percepções sociopolíticas e econômicas.
A iniciativa “Corrija o Mapa” e seus apoiadores
Liderada pelo Togo e por diversos Estados africanos, a campanha “Corrija o Mapa” propôs a adoção da projeção Equal Earth, desenvolvida para preservar áreas e proporções de forma mais fiel. A proposta recebeu apoio de mais de 150 países membros da ONU.
- Togo – coordenador da iniciativa;
- Uganda, Quênia e Nigéria – vozes fortes da África;
- Brasil e México – representantes da América Latina;
- Índia e Indonésia – representantes do Sudeste Asiático.
Além dos países, a União Africana adotou oficialmente a projeção Equal Earth, reforçando a campanha em fóruns internacionais e educacionais. A França também anunciou a mudança, prometendo substituir a projeção de Mercator em suas publicações oficiais.
Impactos da distorção cartográfica nas percepções globais
As distorções cartográficas podem minimizar a importância de regiões do Sul Global, reduzindo a percepção de suas necessidades de infraestrutura, desenvolvimento e potencial econômico. Quando um mapa apresenta continentes como a África ou a América Latina em escala reduzida, subconscientemente cria um viés que afeta decisões de investimento e políticas públicas.
Especialistas em geopolítica alertam que esses vieses podem reforçar estereótipos e prejudicar a cooperação internacional. Ao apresentar o mundo de forma desproporcional, a projeção de Mercator pode alimentar narrativas de superioridade ocidental, influenciando tanto a opinião pública quanto a formulação de estratégias de segurança.
Ao adotar a Equal Earth, a ONU pretende oferecer uma ferramenta visual que favoreça discussões mais equilibradas sobre questões como mudanças climáticas, migrações e desenvolvimento sustentável, áreas onde a percepção de território desempenha papel crucial.
Repercussões políticas e próximos passos
Os Estados Unidos foram o único país a votar contra a resolução, classificando a iniciativa como parte de uma “agenda ideológica” que desvia a atenção de problemas como paz e prosperidade global. Essa posição gerou críticas de diplomatas e acadêmicos, que viram a resistência como um reflexo de interesses geoestratégicos.
Apesar da objeção americana, a resolução não torna obrigatória a substituição da projeção de Mercator em navegação marítima e aérea, onde a projeção ainda é considerada a mais prática. O objetivo principal é incentivar governos, escolas, organizações internacionais e empresas de tecnologia a usarem a Equal Earth quando o foco for a representação da superfície terrestre.
Nos próximos meses, a ONU organizará workshops e seminários para treinar educadores e cartógrafos no uso da nova projeção. Espera‑se que grandes plataformas digitais, como Google Maps e OpenStreetMap, comecem a oferecer a opção Equal Earth como camada padrão, ampliando o alcance da mudança.
O ministro das Relações Exteriores do Togo, Robert Dussey, resumiu a importância da medida ao declarar que “um mundo justo começa com um mapa justo”. A esperança é que, ao corrigir as proporções visuais, se abra caminho para discussões mais equitativas sobre recursos, desenvolvimento e justiça social.








