Anders Fernstedt vive no pórtico de uma das propriedades mais caras de Londres desde 2022, na luxuosa rua Rutland Gate, em Knightsbridge. Ele construiu um abrigo com colchões, guarda-sóis e objetos doados, criando um espaço habitável dentro do que antes era a entrada de uma megamansão. A história chama atenção por contrastar o extremo da riqueza com a vulnerabilidade de um sem‑teto que se tornou parte da paisagem local.
Vida nas sombras da megamansão
A mansão de 2‑8A Rutland Gate foi vendida em 2020 por 210 milhões de libras ao magnata chinês Hui Ka Yan, fundador da Evergrande. O comprador foi preso logo depois, e a casa ficou vazia, com a propriedade registrada em nome da esposa, que tem seus bens congelados. O edifício, com 45 cômodos, piscina coberta e 116 janelas, entrou em estado de abandono, atraindo curiosos e fotógrafos.
Anders nunca entrou na residência propriamente dita. Ele se instalou apenas no pórtico, onde as colunas grandiosas sustentam a fachada da casa. O espaço aberto funciona como um corredor coberto, protegido da chuva e do sol intenso. Ali, o sem‑teto encontrou um refúgio que lhe permite dormir ao ar livre sem sentir frio no inverno, graças à brisa que circula.
Como Anders construiu seu refúgio
O sueco chegou ao Reino Unido em 2016, depois de trabalhar como jornalista e verificador de fatos para publicações como The Economist. Quando a pandemia reduziu as oportunidades de trabalho, ele recorreu a uma reserva financeira obtida em uma startup de tecnologia nos EUA. Essa quantia durou poucos meses, e Anders passou a viver em barracas e acomodações temporárias.
Com o tempo, ele passou a montar seu próprio cantinho sob o pórtico. Usou colchões, cobertores e roupas de cama que recebeu de vizinhos e de doações. Também instalou um grande guarda‑sol para proteger-se da chuva, e organizou uma pequena área com brinquedos infantis, sacolas de compras e até algumas plantas.
- Colchões e roupas de cama – doações de moradores locais.
- Guarda‑sol e toldo – adquirido em lojas de jardinagem.
- Plantas e flores – fornecidas por floriculturas próximas.
- Alimentos não vendidos – recolhidos de padarias e cafés.
Anders mantém o espaço limpo e organizado, evitando que se torne alvo de ladrões ou vândalos. Ele também tem acesso à rede elétrica da mansão, graças à gentileza de alguns vizinhos que lhe permitem ligar um cabo discreto.
Relações com a comunidade local
Embora alguns moradores reclamem da presença de um sem‑teto no bairro mais rico de Londres, a maioria vê Anders como um elemento que impede a degradação do local. Ele costuma conversar com quem passa, oferecendo um sorriso e agradecendo pelos pequenos gestos de apoio.
Padarias, cafés e floriculturas da região entregam alimentos que não foram vendidos, flores para decorar o pórtico e até roupas elegantes, como paletós italianos. Além disso, Anders frequenta uma instituição de caridade próxima a Victoria para tomar banho e obter roupas.
Ele descreve a relação com a vizinhança como uma troca de normalidade: “O que vocês me dão é um pouco de normalidade, uma conversa amigável entre vizinhos”. Essa interação reforça a sensação de que, mesmo em meio ao luxo, há espaço para solidariedade.
O futuro incerto da propriedade
A megamansão permanece em limbo jurídico, já que os bens da esposa de Hui Ka Yan estão congelados. Enquanto isso, o pórtico continua a abrigar o improvisado lar de Anders. Especialistas apontam que, se a casa for vendida ou leiloada, o futuro do abrigo pode mudar drasticamente.
Entretanto, Anders demonstra resiliência. Ele afirma que, mesmo que algum objeto desapareça, não se preocupará, comparando seus pertences a “nozes de esquilo” que ele acumula sem notar a falta de nenhum deles. Essa mentalidade o ajuda a lidar com a incerteza e a manter a esperança.
Enquanto a cidade de Londres debate sobre habitação e desigualdade, a história de Anders Fernstedt oferece um retrato humano que questiona os limites entre riqueza e pobreza. Seu pórtico, repleto de objetos doados e histórias de superação, torna‑se um símbolo de como a solidariedade pode florescer nos lugares mais inesperados.








