Um exame de sangue capaz de identificar sinais associados a mais de cinquenta tipos diferentes de câncer foi introduzido no Einstein Hospital Israelita, em São Paulo, neste mês de outubro de 2026. A tecnologia, chamada Galleri, foi desenvolvida nos Estados Unidos e agora está disponível para a população brasileira a partir de 50 anos, como complemento aos exames de rastreamento tradicionais.
Como funciona o teste Galleri e quem pode utilizá‑lo
O procedimento consiste em uma simples coleta de sangue, que é enviada para análise de fragmentos de DNA livre circulante e padrões de metilação. Esses marcadores químicos revelam alterações moleculares que podem indicar a presença de células cancerígenas em diferentes órgãos.
O exame não substitui a mamografia, colonoscopia, citologia ou outros exames de rotina, mas funciona como um reforço na detecção precoce, sobretudo para tipos de câncer que ainda não possuem protocolos de rastreamento sistemático.
Para ser elegível, o paciente deve:
- Ter 50 anos ou mais;
- Não apresentar sintomas que sugerem câncer;
- Não estar grávida;
- Não estar em tratamento ativo contra o câncer.
A indicação do teste deve ser feita por um médico, que analisará o histórico clínico e interpretará os resultados à luz de outros exames complementares.
Resultados, interpretações e limitações
Quando o relatório indica “Sinal de Câncer Detectado”, o paciente é encaminhado para exames de imagem ou biópsias que confirmem ou descartem a presença da doença. Caso o resultado seja “Sinal de Câncer Não Detectado”, o acompanhamento clínico de rotina continua, pois o teste não elimina a possibilidade de um câncer oculto.
Como todo método diagnóstico, o Galleri apresenta taxas de falsos‑positivos e falsos‑negativos. Estudos internacionais apontam uma especificidade de 99,6 % e uma taxa de falsos‑positivos inferior a 0,4 %.
Os principais pontos a considerar são:
- Um resultado positivo requer confirmação por exames complementares;
- Um resultado negativo não garante ausência total de câncer;
- O teste não é indicado para gestantes nem para pacientes em tratamento oncológico ativo.
Evidências científicas que sustentam o uso clínico
Três grandes estudos internacionais avaliaram a eficácia do Galleri. O primeiro, chamado Pathfinder, publicado no The Lancet em 2023, incluiu 6.662 adultos com 50 anos ou mais nos Estados Unidos e demonstrou a viabilidade do teste na prática clínica.
O segundo, Pathfinder 2, recrutou 35.878 participantes nos Estados Unidos e Canadá. Os resultados mostraram que a adição do Galleri aos exames recomendados aumentou em 6,5 vezes a detecção de cânceres que ainda não tinham sido identificados por rastreamento padrão.
Entre os achados do Pathfinder 2, destacam‑se:
- Especificidade de 99,6 %;
- Taxa de falso‑positivo < 0,4 %;
- Acurácia de 91,3 % na previsão da provável origem do sinal;
- 71 % dos cânceres detectados em estágios I a III.
O terceiro estudo, NHS‑Galleri, realizado no Reino Unido com mais de 140 mil participantes, não encontrou redução estatisticamente significativa na incidência combinada de cânceres em estágios III e IV, mas revelou um aumento na detecção precoce (estágios I e II) em análises secundárias.
Essas evidências reforçam a ideia de que o teste pode ser um aliado importante na estratégia de rastreamento, sobretudo para tumores como pâncreas, fígado e ovário, que ainda não têm protocolos de rastreamento de rotina.
Integração do Galleri ao protocolo do Einstein
O Einstein Hospital Israelita, em parceria com o Grupo Fleury por meio da joint venture Gênesis Genomics, desenvolveu um protocolo clínico detalhado para garantir que o exame seja inserido de forma segura e baseada em evidências. O fluxo inclui:
- Triagem do paciente pelo médico responsável;
- Coleta de sangue e envio ao laboratório parceiro;
- Interpretação dos resultados por equipe multidisciplinar;
- Encaminhamento para exames confirmatórios, se necessário;
- Acompanhamento longitudinal do paciente, independentemente do resultado.
O objetivo é criar uma jornada assistencial estruturada, que combine o teste multicancer com os exames de rastreamento já consolidados, como mamografia, colonoscopia, Papanicolau, tomografia de baixa dose para pulmão e PSA.
Fernando Moura, oncologista e gerente médico do Centro de Multiômica do Einstein, enfatiza que o Galleri não deve substituir os exames de rotina, mas sim complementá‑los, ampliando a janela de oportunidade para intervenções terapêuticas mais eficazes.
Com a chegada desse exame ao Brasil, espera‑se que a taxa de diagnóstico precoce aumente, possibilitando tratamentos menos invasivos e melhor qualidade de vida para os pacientes.
O futuro do rastreamento oncológico no país pode incluir, ainda, a expansão do teste para faixas etárias mais jovens, conforme novos dados de eficácia e custo‑benefício forem publicados. Enquanto isso, a recomendação oficial permanece: manter os exames de rotina, adotar hábitos saudáveis e conversar com o médico sobre a possibilidade de incluir o Galleri na avaliação de risco individual.








