Na última sexta‑feira, 4 de maio de 2024, o órgão regulador de medicamentos da Nova Zelândia, o Medsafe, autorizou que psiquiatras prescrevam MDMA de grau farmacêutico para pacientes com transtorno de estresse pós‑traumático (TEPT) grave. A medida foi anunciada em Wellington e marca a segunda vez que um país permite o uso clínico da substância, seguindo a Austrália. A decisão abre caminho para tratamentos inovadores em saúde mental no país.
A decisão do Medsafe e seu contexto
O Medsafe, frequentemente comparado à Anvisa brasileira, avaliou estudos internacionais que apontam alta taxa de resposta ao MDMA quando combinado com psicoterapia. O comitê destacou que a droga, conhecida nas festas como ecstasy, apresenta perfil de segurança aceitável quando administrada em ambiente controlado. Por isso, a aprovação foi limitada a psiquiatras credenciados, que deverão seguir protocolos rígidos.
David Seymour, vice‑primeiro‑ministro da Nova Zelândia, celebrou a medida como um avanço para quem sofre com traumas profundos. Em discurso público, ele lembrou que no ano anterior o país já havia aprovado cogumelos psicodélicos para depressão resistente. “O TEPT destrói vidas e é difícil de tratar; o MDMA pode ser muito eficaz por meio da terapia assistida por psicodélicos”, afirmou.
O Ministério da Saúde enfatizou que o tratamento deve ocorrer exclusivamente em clínicas, nunca em domicílio. Os pacientes precisam ser maiores de 18 anos e estar inseridos em um plano terapêutico que inclui sessões de psicoterapia antes, durante e após a administração da substância. Essa exigência visa evitar uso recreativo e garantir acompanhamento médico contínuo.
Como funciona a terapia assistida por MDMA
A prática clínica segue um roteiro estruturado que combina farmacologia e psicoterapia. Cada fase tem objetivos específicos e requer a presença de um profissional treinado. O protocolo padrão inclui três sessões de aplicação de MDMA, espaçadas por algumas semanas, intercaladas com sessões de integração.
- Preparação: antes da primeira dose, o paciente participa de duas a três sessões de terapia para estabelecer confiança e definir metas.
- Administração: em ambiente controlado, o médico fornece uma dose única de MDMA, geralmente entre 75 mg e 125 mg, enquanto o terapeuta conduz a conversa.
- Integração: nas semanas seguintes, o paciente revisita as emoções despertadas, consolidando aprendizados e reduzindo sintomas.
Estudos clínicos realizados nos Estados Unidos e na Europa mostraram que até 67 % dos participantes apresentaram redução significativa nos sintomas de TEPT após o tratamento completo. Os efeitos colaterais mais comuns são aumento da frequência cardíaca e leve ansiedade, que desaparecem em poucas horas.
Importante ressaltar que o MDMA não substitui medicamentos tradicionais, mas funciona como um potenciador da terapia. A combinação permite que o paciente acesse memórias traumáticas sem ficar sobrecarregado, facilitando a reprocessamento emocional.
Desdobramentos internacionais e perspectivas futuras
Com a Nova Zelândia, o número de nações que permitem a terapia assistida por psicodélicos sobe para quatro, incluindo Austrália, Canadá e alguns estados dos EUA que concederam permissões de uso compassivo. Cada país adota critérios diferentes, mas todos compartilham a exigência de ambientes clínicos controlados.
Nos Estados Unidos, a FDA ainda não aprovou o MDMA para uso medicinal, embora tenha concedido status de “investigational new drug” para ensaios avançados. Em 2024, a agência rejeitou a aprovação definitiva por falta de evidências robustas sobre segurança a longo prazo.
Em Israel, um estudo envolvendo sobreviventes da festa “Supernova”, atingida por ataques do Hamas em outubro de 2023, indicou que o MDMA ajudou a reduzir o impacto do trauma. Os resultados reforçam a ideia de que a substância pode ser útil em contextos de trauma coletivo.
Especialistas apontam que a expansão da terapia psicodélica pode pressionar sistemas de saúde a criar novas especializações. Cursos de formação para psiquiatras e psicólogos já estão sendo oferecidos em universidades australianas e canadenses.
Entretanto, críticos alertam para riscos de uso indevido e para a necessidade de monitoramento pós‑tratamento. Organizações de saúde pública recomendam que os governos estabeleçam registros nacionais de pacientes para acompanhar efeitos a longo prazo.
Para a Nova Zelândia, a medida também tem implicações políticas. O governo tem buscado equilibrar inovação terapêutica com a proteção de menores, como demonstra a proposta de proibir redes sociais para usuários abaixo de 16 anos. A aprovação do MDMA se insere nesse cenário de regulação mais rigorosa.
Os primeiros pacientes que receberão o tratamento são dois psiquiatras que já participaram de ensaios clínicos nos Estados Unidos. Eles serão acompanhados por equipes multidisciplinares, incluindo enfermeiros, assistentes sociais e terapeutas ocupacionais.
Se os resultados forem positivos, a autorização poderá ser estendida a outros profissionais da saúde mental, como psicólogos com certificação específica. O Medsafe já sinalizou que revisará a política anualmente, com base em dados de eficácia e segurança.
Enquanto isso, a comunidade científica continua a investigar outras substâncias psicodélicas, como a psilocibina e a ibogaína, para condições como depressão resistente e dependência química. A tendência é que o campo se expanda rapidamente nos próximos anos.
Em resumo, a aprovação do MDMA na Nova Zelândia representa um marco regulatório e clínico. Ela oferece esperança para milhares de pessoas que vivem com TEPT e que não respondem a tratamentos convencionais. Ao mesmo tempo, impõe responsabilidade ao sistema de saúde para garantir que o uso seja seguro, ético e baseado em evidências.








