O Ministério da Saúde divulgou, nesta segunda‑feira, 28 de setembro, a estimativa preliminar de investimento para disponibilizar canetas injetáveis de semaglutida no Sistema Único de Saúde. O valor projetado gira em torno de R$ 1,5 bilhão por ano, e o medicamento pode chegar à rede pública com descontos que chegam a 90 %. A medida busca ampliar o acesso ao tratamento contra a obesidade em todo o país.
Contexto e justificativa do investimento
A decisão vem após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciar, sem prazo definido, que pacientes do SUS com obesidade terão acesso ao tratamento mediante prescrição médica. Essa promessa gerou pressão para que o Ministério da Saúde apresente um plano financeiro viável e baseado em evidências clínicas. O órgão ainda formalizou, no dia 24, um pedido à Conitec para avaliação da incorporação das medicações à base de liraglutida e semaglutida.
Dados da Anvisa mostram que o número de usuários de canetas antiobesidade no Brasil saltou de cerca de 400 mil para mais de 750 mil por mês nos últimos doze meses. Esse crescimento reflete tanto a maior conscientização da população quanto a expansão da oferta de genéricos e similares no mercado. Contudo, o alto custo ainda representa barreira significativa para a maioria dos pacientes, sobretudo aqueles que dependem do SUS.
Estratégias adotadas para reduzir custos
Desde 2023, o governo federal tem implementado medidas para desburocratizar a entrada de novos produtos e estimular a produção nacional. Entre elas, destaca‑se a não prorrogação da patente da semaglutida, o que abriu espaço para a entrada de concorrentes e a queda de preços. Além disso, o Ministério acelerou a aprovação de novos registros e incentivou a fabricação local, reduzindo a dependência de importações caras.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, informou que, na farmácia privada, o preço já está 70 % mais barato em relação ao início do ano. Quando se considera a escala de compras do SUS, combinada com produção nacional, a projeção de redução chega a 80‑90 % do valor original. Essa economia permite que o orçamento anual de R$ 1,5 bilhão seja suficiente para incorporar as canetas ao rol de medicamentos oferecidos pelo sistema público.
- Impedimento da prorrogação da patente da semaglutida;
- Aceleração de processos regulatórios para novos genéricos;
- Incentivo à produção nacional de canetas antiobesidade;
- Negociação de descontos de até 90 % para compras em larga escala.
Público‑alvo e benefícios esperados
A oferta no SUS será direcionada prioritariamente a pacientes com obesidade grave, aqueles com comorbidades como doenças cardiovasculares, candidatos à cirurgia bariátrica e mulheres que superaram câncer de mama. Esses grupos foram selecionados porque apresentam maior risco de complicações e podem gerar maior economia ao sistema de saúde ao reduzir internações e procedimentos caros.
Segundo Padilha, a medicação não deve ser vista como um “milagre estético”, mas como parte integrante de um plano que inclui alimentação balanceada e atividade física. Quando combinada com essas mudanças de estilo de vida, a semaglutida pode reduzir significativamente o peso corporal e melhorar indicadores metabólicos. O efeito esperado inclui menor demanda por cirurgias bariátricas, menos internações por eventos cardiovasculares e menor taxa de recidiva de câncer de mama.
- Redução de cirurgias bariátricas;
- Queda nas internações por doenças cardiovasculares;
- Diminuição de recidivas oncológicas relacionadas à obesidade;
- Melhoria da qualidade de vida dos pacientes.
Próximos passos e avaliação de eficácia
O projeto‑piloto denominado Real‑Bari já está em andamento em Porto Alegre, no Grupo Hospitalar Conceição, e deve acompanhar 250 pacientes com obesidade grave ao longo de dois anos. O estudo tem como objetivo principal analisar a relação custo‑efetividade da semaglutida no contexto do SUS, além de medir impactos em saúde, como redução de eventos clínicos graves.
Os resultados desse estudo servirão de base para a decisão da Conitec sobre a incorporação definitiva da medicação ao rol de tratamentos oferecidos pelo SUS. Caso os dados confirmem os benefícios esperados, a expectativa é que o programa seja ampliado para outras regiões do país, seguindo a diretriz da OMS que recomenda acesso equitativo a terapias baseadas em agonistas do GLP‑1.
Enquanto isso, o Ministério da Saúde continua monitorando a evolução dos preços e a disponibilidade de novos genéricos no mercado. A estratégia de combinar descontos agressivos, produção nacional e avaliação rigorosa de custo‑benefício pretende garantir que o investimento de R$ 1,5 bilhão seja sustentável a longo prazo. A iniciativa representa um marco na política pública de combate à obesidade, que tem aumentado sua prevalência de 11,8 % em 2006 para 25,7 % em 2024.
Em síntese, a proposta de incorporar as canetas de semaglutida ao SUS reflete um esforço coordenado entre governo, agências regulatórias e indústria farmacêutica para tornar um tratamento antes restrito a poucos acessível a milhões de brasileiros. O sucesso dependerá não apenas da redução de preços, mas também da capacidade de integrar o medicamento a programas de educação nutricional e incentivo à prática regular de exercícios físicos.








