Nos Estados Unidos, as eleições de meio de mandato (midterms) ocorrerão na próxima terça‑feira, 3 de novembro de 2026, e determinarão o rumo do Congresso nos últimos dois anos da atual administração. O pleito envolverá a renovação parcial da Câmara dos Representantes e de um terço do Senado, colocando em xeque a capacidade do presidente de avançar seu programa legislativo. Embora Trump não esteja concorrendo a um cargo, o resultado das urnas tem implicações diretas em sua estratégia política.
O cenário político e a importância das midterms
Ao contrário do Brasil, onde todo o Legislativo é renovado a cada quatro anos, nos EUA o Congresso se renova parcialmente a cada dois anos. As eleições que ocorrem na metade do mandato presidencial são chamadas de “midterms” e costumam servir como referendo da popularidade do presidente em exercício. Em 2024, o Partido Republicano conquistou a maioria nas duas casas, permitindo que a agenda de Trump avançasse, ainda que com resistência de alguns membros do próprio partido.
Essa maioria estreita tem sido suficiente para aprovar projetos de infraestrutura, cortes de impostos e nomeações judiciais, mas também revelou fissuras internas. Vários congressistas republicanos votaram contra a administração em temas como políticas de imigração e regulamentação ambiental, demonstrando que a coesão partidária não é garantida. Assim, as midterms de 2026 representam um teste crucial para avaliar se o controle republicano será mantido ou se os democratas conseguirão retomar a liderança.
As preocupações de Trump com investigações e possíveis impeachment
Segundo o professor Carlos Gustavo Poggio, especialista em relações internacionais, a principal ansiedade de Trump reside na possibilidade de que os democratas, ao reconquistar a maioria, abram investigações sobre supostos atos ilícitos cometidos durante sua gestão. Ele alerta que, com o controle da Câmara e do Senado, os democratas poderiam autorizar comissões de inquérito, solicitar documentos e pressionar por processos judiciais que aumentariam a pressão sobre o ex‑presidente.
Entretanto, Poggio destaca que um impeachment efetivo ainda é improvável. A Constituição dos EUA exige que, para afastar o presidente, seja necessária a aprovação de dois terços dos senadores, o que exigiria apoio significativo de republicanos. Um cenário de impeachment só se tornaria viável em caso de crise profunda, queda abrupta da popularidade de Trump e uma maioria democrata capaz de atrair votos cruzados.
Mesmo assim, a simples perspectiva de comissões investigativas tem motivado Trump a intensificar sua campanha de mobilização, buscando impedir que os democratas alcancem a maioria necessária para iniciar tais procedimentos.
Estrategias da campanha republicana para manter o poder
Nos últimos meses, Trump tem percorrido o país quase diariamente, participando de comícios e discursos que visam energizar a base republicana. Em um gesto inusitado, prometeu conceder um bônus de até US$ 5 mil para cada adulto americano caso os republicanos vencam as eleições, uma proposta que, embora controversa, tem sido usada como ferramenta de arrecadação e engajamento.
Além das visitas, a liderança republicana tem apoiado mudanças nos mapas eleitorais – o chamado “gerrymandering” – para favorecer o partido em estados decisivos. Essas alterações buscam maximizar o número de distritos onde os republicanos tenham vantagem numérica, garantindo assentos na Câmara mesmo em estados com eleitorado equilibrado.
- Redesenho de distritos em estados-chave como Pensilvânia e Flórida;
- Pressão sobre legisladores estaduais para aprovar leis que restrinjam o voto por correio;
- Campanhas de desinformação sobre supostas fraudes eleitorais, visando desestimular o voto de eleitores democratas.
Trump também tem defendido a restrição ao voto por correio, argumentando que há risco de fraude. Dados mostram que eleitores democratas são mais propensos a usar esse método, o que poderia impactar negativamente os resultados republicanos. Essa postura tem gerado debates intensos nos tribunais estaduais e federais, mas a estratégia permanece central na narrativa da campanha.
O panorama das pesquisas e o que ainda está em jogo
Pesquisas recentes apontam que a taxa de desaprovação de Trump ronda os 60%, indicando um clima desfavorável para a sua figura, embora sua base permaneça fiel. Analistas apontam que, se os democratas recuperarem a maioria na Câmara e no Senado, poderão bloquear projetos de lei prioritários para a agenda conservadora e acelerar investigações sobre a administração anterior.
Por outro lado, uma vitória republicana consolidaria o controle legislativo e permitiria a aprovação de medidas como a redução de impostos, a flexibilização de regulações ambientais e a continuação das políticas de imigração restritivas. Além disso, manteria a influência do presidente nas nomeações judiciais, afetando decisões da Suprema Corte por anos.
Em resumo, as midterms de 2026 são mais que um simples pleito de meio de mandato; são um ponto de inflexão que definirá o equilíbrio de poder entre democratas e republicanos, influenciará possíveis investigações contra Trump e moldará o cenário político dos próximos quatro anos nos Estados Unidos.








