No início de 2024, o Projeto Vivas recebeu uma adolescente de 13 anos que buscava interromper a gestação, mas teve o pedido negado em um hospital municipal de São Paulo. O caso ilustra a dificuldade de acesso ao aborto legal para crianças vítimas de violência sexual, mesmo quando a lei brasileira garante o direito. A pesquisa da ONG Plan International revelou que metade das meninas que engravidam antes dos 14 anos não recebem a opção de interrupção legal da gravidez nos serviços de saúde.
Contexto legal e direitos reprodutivos
No Brasil, o aborto é permitido em três situações específicas: risco de vida para a gestante, gravidez resultante de estupro e anomalia fetal grave. Quando a relação sexual ocorre com uma criança menor de 14 anos, a lei classifica o ato como estupro de vulnerável, o que deveria garantir o acesso imediato ao procedimento.
Entretanto, a legislação penal não detalha quais unidades de saúde devem oferecer o serviço nem como proceder na prática. Desde 2013, a Lei do Minuto Seguinte obriga hospitais a informar vítimas de violência sexual sobre seus direitos, inclusive o aborto legal, mas a implementação ainda é fragmentada.
- Risco à vida da gestante: quando a continuação da gravidez ameaça a saúde física ou mental da mulher.
- Estupro: inclui relações forçadas ou consentimento inexistente, como no caso de menores de 14 anos.
- Anomalia fetal: defeitos graves incompatíveis com a vida extra‑uterina.
Resultados da pesquisa e realidade das adolescentes
O estudo da Plan International, realizado com mais de 1.500 mulheres entre 19 e 29 anos, mostrou que 35% delas engravidaram ainda na infância ou adolescência. Dentre as que ficaram grávidas antes dos 14 anos, 50% relataram que nunca tiveram a opção de aborto legal apresentada pelos profissionais de saúde.
Os dados do Observatório Criança Não é Mãe apontam que, diariamente, 45 crianças de 9 a 14 anos dão à luz no país, a maioria negras e em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Essa população tem 13 pontos percentuais a mais de chance de não receber educação sexual adequada e 9 pontos percentuais a mais de desconhecer onde obter contraceptivos gratuitos.
Além da falta de informação, o estudo destaca que o diálogo familiar costuma ser marcado pelo silêncio ou por imposições morais. Nas unidades de saúde, muitas meninas relatam discriminação, falta de acolhimento e até a recusa explícita do procedimento, o que agrava o trauma já existente.
Desafios e caminhos para garantir o acesso
Especialistas apontam que a principal barreira não é a inexistência da lei, mas a ausência de protocolos claros e a resistência moral de profissionais de saúde. A defensora pública Tatiana Campos Bias Fortes ressalta que, sem diretrizes que obriguem hospitais a oferecer o aborto legal, a prática continua dependente da postura individual de cada equipe médica.
Paula Alegria, da Plan International, afirma que a falta de educação sexual, frequentemente estigmatizada por setores conservadores, alimenta o ciclo de violência contra crianças. Ela também destaca que, mesmo quando o direito ao aborto é comunicado, a mensagem costuma ser desencorajadora, deixando a família e a rede de proteção em busca de um serviço que muitas vezes não existe.
Para mudar esse cenário, é necessário:
- Estabelecer protocolos nacionais que determinem quais serviços de saúde devem oferecer o aborto legal e em quais prazos.
- Capacitar profissionais para que ofereçam acolhimento sem julgamento e com informação clara sobre os direitos da adolescente.
- Ampliar programas de educação sexual nas escolas, garantindo que crianças e adolescentes conheçam seus direitos reprodutivos.
- Fortalecer a rede de proteção, facilitando o encaminhamento rápido a hospitais que realizam o procedimento.
Enquanto essas medidas não forem implementadas, a realidade descrita pela pesquisa continuará a gerar sofrimento desnecessário. Cada menina que tem sua gestação negada vive uma experiência que a ONU classifica como tortura, pois é forçada a prosseguir com uma gravidez resultante de violência sexual.
O debate público precisa reconhecer que o acesso ao aborto legal para menores não é apenas uma questão de saúde, mas de direitos humanos. Garantir que todas as crianças tenham a opção de interromper uma gestação indesejada é um passo fundamental para romper o ciclo de violência e promover uma sociedade mais justa e segura.








