A Meta, controladora do Instagram e do Facebook, firmou um acordo nesta sexta‑feira (30) com uma jovem que alegava que as redes sociais foram projetadas para gerar dependência e provocar depressão e transtornos alimentares. O acordo foi anunciado em Los Angeles, onde o caso está sendo julgado, e ocorre em meio a uma série de processos que cobrem todo o setor de plataformas digitais. Ainda não foram divulgados os valores nem as cláusulas específicas do entendimento.
Detalhes do acordo e contexto jurídico
O acordo foi concluído após a seleção dos jurados para o julgamento que deveria analisar as acusações de duas adolescentes – identificadas como S.J. e K.D.B. – contra a Meta e a Snap, proprietária do Snapchat. Enquanto a Meta já havia acertado com S.J. dias antes, o novo entendimento encerra a participação da empresa no caso, que agora segue apenas contra a Snap.
O processo foi escolhido entre milhares de ações semelhantes para servir como referência nacional. Isso significa que a decisão dos jurados poderá influenciar a forma como outras empresas e autores de ações similares resolverão disputas futuras.
Além da Meta, outras gigantes como TikTok, YouTube (Alphabet) e Snap também enfrentam acusações de que seus aplicativos foram desenvolvidos para estimular o uso compulsivo, criando um ciclo de dificuldade em parar de usar as plataformas.
- Meta – Instagram e Facebook
- Snap – Snapchat
- TikTok – plataforma de vídeos curtos
- YouTube – serviço de streaming de vídeo
As duas adolescentes já haviam fechado acordos individuais com o TikTok e o YouTube, reduzindo ainda mais o número de partes no julgamento em curso.
Impacto das redes sociais na saúde mental dos jovens
Segundo as autoras dos processos, o uso precoce das plataformas – a partir dos três anos de idade no caso do YouTube e aos nove anos nas demais – teria desencadeado hábitos compulsivos. Funcionalidades como a reprodução automática de vídeos e a rolagem infinita são apontadas como mecanismos que mantêm o usuário conectado por longos períodos.
Os relatos das jovens incluem desenvolvimento de depressão, ansiedade, transtornos alimentares e dificuldade de concentração nos estudos. Esses sintomas se inserem em um panorama mais amplo de crise de saúde mental entre adolescentes nos Estados Unidos, onde casos de suicídio e depressão têm aumentado nos últimos anos.
Especialistas em psicologia digital apontam que a combinação de notificações constantes, algoritmos de recomendação e a pressão social por likes e seguidores cria um ambiente propício ao vício. “Quando o cérebro recebe recompensas intermitentes, como as curtidas, ele libera dopamina, reforçando o comportamento de checagem constante”, explica a psicóloga Maria Oliveira, da Universidade de São Paulo.
Em resposta às acusações, as empresas negam que tenham projetado seus aplicativos para causar dependência. Elas afirmam que investem em recursos de segurança, como filtros de conteúdo, limites de tempo de uso e ferramentas de bem‑estar digital.
Entretanto, as demandas judiciais argumentam que essas medidas são insuficientes e que a própria arquitetura das plataformas – feed infinito, notificações push e recomendações personalizadas – já constitui um design deliberado para maximizar o tempo de tela.
Repercussões para a Meta e outras plataformas
O acordo com a adolescente marca mais um capítulo nas disputas judiciais que envolvem a Meta nos Estados Unidos. Em agosto, a empresa fechou acordos que podem chegar a US$ 18 bilhões com quase todos os estados e territórios, visando encerrar processos movidos por procuradores‑gerais que alegavam prejuízos a adolescentes.
Como parte desses acordos, a Meta se comprometeu a alterar funcionalidades do Instagram e do Facebook para usuários menores de idade, incluindo a restrição de anúncios direcionados e a implementação de limites de tempo de uso.
Além disso, no início do mês, um juiz do Novo México determinou que a Meta pagasse uma multa de US$ 25 bilhões por suposta violação de privacidade e falhas no combate a discurso de ódio. A empresa já anunciou que recorrerá da decisão.
Para a Snap, o processo continua em andamento, e a empresa ainda não chegou a um acordo com a adolescente K.D.B. O desfecho poderá definir novos parâmetros de responsabilidade para plataformas que ainda não foram diretamente penalizadas.
Outras companhias, como TikTok e YouTube, já firmaram acordos individuais com as jovens demandantes, mas permanecem sob escrutínio de autoridades regulatórias que buscam normas mais rígidas para proteção de menores.
O Ministério Público Eleitoral (MPE) também apontou que a Meta não cumpriu medidas para garantir tratamento igualitário nas campanhas presidenciais, reforçando a ideia de que a empresa enfrenta pressões em múltiplas frentes legais.
Analistas de mercado preveem que esses litígios podem impactar o valor de mercado das ações das empresas de tecnologia, já que investidores ficam cautelosos diante de possíveis multas bilionárias e da necessidade de investir em mudanças estruturais nas plataformas.
Em síntese, o acordo firmado com a adolescente representa um passo significativo para a Meta, mas não encerra a discussão sobre a responsabilidade das redes sociais na saúde mental dos jovens. O caso permanece como um marco jurídico que pode definir novos padrões de design ético e de transparência no universo digital.








