Na noite de sábado, 18 de setembro de 2026, o cantor e compositor Marcos Sacramento estreou o espetáculo Sambear no tradicional Circo Voador, no Rio de Janeiro. O show trouxe para o palco a energia da roda de samba que o artista costuma comandar nos centros históricos da cidade, mesclando tradição e inovação em uma apresentação de alto impacto.
Da roda ao palco: a proposta de Sambear
O conceito do espetáculo parte da própria experiência de Sacramento nas rodas de samba, onde a troca de repertório e a intimidade com o público são fundamentais. No Circo Voador, essa dinâmica foi ampliada por uma banda que se assemelha a uma pequena orquestra, com cordas, sopros e percussões. O resultado foi uma transposição que manteve o espírito de união da roda, mas elevou a produção a um nível teatral.
A abertura contou com o ponto de umbanda “O sino da igrejinha”, interpretado pela big banda, sinalizando a forte carga de afro‑brasilidade que permeia todo o espetáculo. Essa escolha reforçou a mensagem de que o samba, para Sacramento, é também manifestação espiritual e cultural.
Repertório que celebra a história do samba
O programa incluiu clássicos que marcaram diferentes épocas do gênero, garantindo que o público reconhecesse referências familiares enquanto descobria novas interpretações. Entre as músicas apresentadas, destacam‑se:
- “Canto das três raças” – homenagem à Clara Nunes e ao legado da década de 1970.
- “Jesus é preto” – composição de Sacramento e Paulo Baiano, escrita nos anos 1980 e gravada recentemente.
- “A batucada dos nossos tantãs” – símbolo de resistência popular, popularizada pelo Fundo de Quintal.
Além desses, o artista inseriu números menos conhecidos, como “Sem compromisso” (Geraldo Pereira) e “Samba do grande amor” (Chico Buarque), ampliando o leque de referências históricas.
Em cada canção, Sacramento buscou equilibrar a nostalgia com a contemporaneidade, usando arranjos que exploram tanto a delicadeza das cordas quanto a força dos metais. O resultado foi uma sonoridade rica que agradou tanto os puristas quanto os apreciadores de novas sonoridades.
Performance e presença de palco
Durante a apresentação, o cantor percorreu o palco com a mesma energia que costuma ter nas rodas de rua, interagindo diretamente com a plateia. Em momentos de destaque, como o solo de guitarra de Elísio Freitas em “Você me vira a cabeça (Me tira do sério)”, a performance ganhou um tom teatral que reforçou a mensagem de resistência e alegria.
O violonista Luiz Flavio Alcofra e o cavaquinhista Lucas Machado também foram protagonistas, oferecendo improvisos que enriqueceram canções como “Alguém me avisou” (Dona Ivone Lara). A presença desses músicos virtuosos elevou o espetáculo a um patamar de concerto sinfônico, sem perder a intimidade típica das rodas de samba.
Mesmo com a concorrência de shows gratuitos na Lapa, o público presente mostrou-se receptivo, aplaudindo calorosamente cada número. O calor do solista, aliado aos arranjos complexos, criou uma atmosfera que fez o Circo Voador pulsar ao ritmo do samba.
Homenagens e resgate de figuras históricas
Ao longo do show, Sacramento prestou tributo a ícones do samba carioca, como Ismael Silva, Nilton Bastos e Clementina de Jesus. Canções como “Se você jurar” e “Yaô” foram apresentadas com arranjos que combinaram reverência e inovação, reforçando a importância da memória cultural.
Essas homenagens não foram meramente simbólicas; elas foram integradas ao discurso político e social do artista, que usa o samba como ferramenta de crítica e afirmação identitária. A escolha de repertório evidencia a visão de Sacramento de que o samba é, antes de tudo, voz do povo.
O encerramento, com “A batucada dos nossos tantãs”, trouxe uma energia de resistência que ecoou na plateia, reforçando o compromisso do artista com a cultura popular e a luta contra o silenciamento das vozes marginalizadas.
Em síntese, o espetáculo Sambear conseguiu transformar a essência de uma roda de samba em uma experiência de grande escala, sem perder a intimidade e o calor humano que caracterizam o gênero. A produção mostrou que é possível ampliar o alcance do samba sem diluir sua identidade, oferecendo ao público uma noite memorável de música, história e emoção.








