Em 2024, grandes marcas de vestuário começaram a usar imagens geradas por inteligência artificial para substituir sessões fotográficas com modelos humanos, reduzindo custos e acelerando lançamentos de coleções. O movimento, que já inclui nomes como Diesel, Calvin Klein e L’Oréal, está sendo testado em lojas online e nas redes sociais, gerando debates sobre o futuro da profissão de modelo.
A ascensão da IA nas sessões de moda
A tecnologia de geração de imagens por IA permite criar fotos hiper‑realistas de roupas em corpos virtuais, sem precisar de estúdio, iluminação ou equipe de produção. As empresas afirmam que o processo pode ser concluído em questão de horas, ao contrário das semanas necessárias para uma sessão tradicional.
Além da rapidez, o custo é reduzido em até 90 %. Um único clique pode gerar dezenas de variações de cor, corte e estilo, facilitando a atualização constante de catálogos digitais para o comércio eletrônico.
Algumas marcas, como a Mango, já utilizam modelos totalmente sintéticos em campanhas de grande escala, enquanto outras, como a Moncler, ainda testam a tecnologia antes de adotá‑la de forma permanente.
Impactos econômicos para modelos e agências
Os contratos analisados pela Reuters revelam que agências de modelos estão enfrentando queda no volume de trabalhos, com estúdios fotográficos fechando portas em várias capitais. A perda de sessões de fotos para moda rápida representa uma redução significativa de renda para milhares de profissionais.
Em documentos confidenciais, marcas solicitaram cláusulas que permitem a “alteração ou reconstrução de características faciais” e a “troca de rostos entre participantes”. Tais permissões podem eliminar a necessidade de novos contratos, pois a mesma imagem pode ser reaproveitada indefinidamente.
Para ilustrar o efeito financeiro, veja a lista abaixo:
- Redução de custos de produção em até 90 %.
- Descontinuação de contratos de curta duração para sessões de moda rápida.
- Fechamento de 30 % dos estúdios de fotografia especializados em moda nos últimos dois anos.
- Deslocamento de investimentos de agências para plataformas de IA.
Modelos que ainda trabalham com agências podem ser convidados a assinar acordos que concedem à marca direitos ilimitados sobre versões digitais de sua imagem, muitas vezes sem remuneração adicional.
Desafios legais e éticos da réplica digital
O uso de avatares criados por IA levanta questões ainda pouco regulamentadas. Não há legislação clara sobre quem detém os direitos de uma réplica digital de uma pessoa real, nem sobre a remuneração de modelos cujas feições são copiadas.
Alguns contratos incluem cláusulas que permitem à marca “possuir” a réplica por um período de um ano, podendo vendê‑la ou licenciá‑la sem consentimento posterior do modelo original. Essa prática pode gerar processos judiciais e debates sobre privacidade e consentimento informado.
Além disso, há o risco de deepfakes e de uso indevido de imagens para fins não comerciais, como campanhas políticas ou propaganda enganosa, ampliando o impacto negativo sobre a reputação dos profissionais envolvidos.
Cenário futuro: o que esperar nos próximos anos
Especialistas alertam que, se a indústria não estabelecer normas claras, “em dois anos toda a indústria será apenas robôs”, como afirmou um diretor de agência entrevistado pela Reuters. A pressão para reduzir custos pode acelerar a substituição de modelos humanos por avatares, especialmente em setores de moda rápida.
Marcas de luxo, porém, ainda adotam uma postura mais cautelosa, preferindo combinar imagens reais com ajustes digitais sutis, ao invés de criar avatares completos. Essa estratégia busca preservar o valor da exclusividade e da autenticidade que caracteriza o segmento premium.
Entretanto, mesmo os players de alto padrão têm testado campanhas híbridas, como a da Gucci, que divulgou imagens geradas por IA no Instagram, gerando controvérsia e debates intensos nas redes sociais.
O futuro da moda pode depender de um equilíbrio entre inovação tecnológica e proteção dos direitos dos profissionais criativos. Regulamentações mais robustas, acordos de licenciamento transparentes e a criação de novos cargos – como “curador de avatares” – podem emergir como respostas ao desafio.








