Milhares de colombianos foram às ruas nesta quarta‑feira, 14 de outubro, nas principais cidades do país para protestar contra as políticas do presidente de direita Abelardo de la Espriella. A mobilização, organizada pela oposição liderada pelo ex‑presidente de esquerda Gustavo Petro, marcou a primeira jornada de contestação ao novo governo.
Contexto político e motivação dos protestos
O presidente Espriella assumiu o cargo em agosto de 2024, prometendo uma agenda de segurança rígida e reformas econômicas alinhadas ao conservadorismo. Apenas dois meses depois, sindicatos, estudantes, comunidades indígenas e grupos da sociedade civil denunciam retrocessos em direitos conquistados nas últimas décadas.
Gustavo Petro, que governou entre 2022 e 2026 como o primeiro presidente de esquerda da Colômbia, lidera a coalizão que convocou as manifestações. O discurso da oposição enfatiza o medo de que as reformas de Espriella revertam programas sociais essenciais, como saúde pública, educação e apoio a populações vulneráveis.
Um dos slogans mais ouvidos nas ruas foi “vai cair!”, referência direta ao governo que, segundo os manifestantes, ameaça direitos fundamentais e liberdades civis.
Principais reivindicações dos manifestantes
Os protestos reuniram uma variedade de demandas que foram organizadas em lista para facilitar a leitura:
- Garantia dos direitos LGBTQIA+: manifestantes carregaram bandeiras do arco‑íris e exigiram políticas de inclusão e proteção contra a discriminação.
- Reversão da retomada das relações diplomáticas com Israel: a ruptura ocorrida durante o mandato de Petro foi restabelecida por Espriella, gerando forte oposição.
- Rejeição à aproximação com o governo dos Estados Unidos: a aliança com a administração de Donald Trump é vista como risco à soberania nacional.
- Manutenção dos bloqueios de estradas rurais: comunidades indígenas defendem o direito de bloquear vias como forma de pressionar por políticas públicas efetivas.
- Limitação do uso da força policial: apesar da flexibilização anunciada por Espriella, os manifestantes pedem garantias contra repressões violentas.
Em entrevista à AFP, Unzo Vargas, funcionário público de 44 anos, relatou sentir-se ameaçado: “Me sinto em perigo, nossos direitos estão em risco… Tudo pelo que lutamos durante tanto tempo hoje está em risco”. Ele participou do protesto em Bogotá carregando a bandeira do arco‑íris, símbolo da comunidade LGBTQIA+.
Reação do governo e medidas de segurança
Na terça‑feira, Espriella decretou a flexibilização do uso da força pelas autoridades em casos de danos ou bloqueios de vias. O presidente justificou a medida como forma de “atacar o terrorismo urbano disfarçado de protesto”.
Em pronunciamento transmitido em rede nacional, Espriella assegurou que o direito de protestar continuará garantido, mas enfatizou que “as forças de segurança não impedirão que as pessoas manifestem‑se pacificamente”. Ele ainda destacou que os direitos de quem não participa das manifestações também precisam ser respeitados.
O presidente alertou que bloqueios que impeçam o fluxo de trabalho ou prejudiquem o comércio não serão mais tolerados. Sob as novas diretrizes, tais atos poderão ser classificados como agressões, e a polícia deverá estabelecer “corredores humanitários” para garantir a passagem de alimentos e medicamentos.
“Durante anos, permitimos que bloqueios impedissem a chegada de alimentos e medicamentos às comunidades, e erroneamente chamamos isso de direito. Isso não é exercer um direito — e, no meu governo, isso acaba”, declarou Espriella.
Nas áreas rurais, as comunidades indígenas historicamente utilizam bloqueios de estradas como forma de pressão política. Em alguns casos, esses bloqueios duraram semanas, interrompendo o transporte de mercadorias e provocando debates sobre a legitimidade desse método de protesto.
O governo, por sua vez, argumenta que a interrupção prolongada de vias essenciais pode colocar em risco a vida de milhares de colombianos que dependem de suprimentos básicos. A proposta de “corredores humanitários” busca equilibrar a necessidade de manifestação com a garantia de acesso a serviços essenciais.
Entretanto, críticos apontam que a medida pode ser usada como pretexto para repressão. Organizações de direitos humanos monitoram a situação e pedem que qualquer uso da força seja estritamente proporcional e sujeito a investigação independente.
Impacto nas cidades e perspectivas futuras
Nas grandes cidades, como Bogotá, Medellín e Cali, as manifestações foram marcadas por grandes concentrações de pessoas, cânticos e bandeiras coloridas. As autoridades locais relataram bloqueios temporários de avenidas principais, mas a maioria dos corredores foi reaberta após negociações entre organizadores e a polícia.
Especialistas em ciência política apontam que a mobilização pode sinalizar um aumento da polarização no país, especialmente em um contexto de crise econômica e alta inflação. A oposição pode usar a onda de protestos para pressionar o Congresso a vetar projetos de lei considerados autoritários.
Ao mesmo tempo, o governo de Espriella tenta consolidar apoio entre setores conservadores, destacando a necessidade de segurança pública e combate ao crime organizado. O presidente tem enfatizado que a flexibilização do uso da força visa proteger a população contra atos de vandalismo e violência.
Observadores internacionais acompanham o desenrolar dos fatos, alertando para o risco de escalada de violência caso o diálogo entre governo e sociedade civil não seja fortalecido. A comunidade internacional tem incentivado a Colômbia a respeitar normas internacionais de direitos humanos.
Com a proximidade das eleições locais previstas para 2025, o clima de protesto pode influenciar o cenário político nacional. Partidos de oposição podem capitalizar o descontentamento popular para ampliar sua base eleitoral, enquanto o governo busca consolidar sua agenda antes do próximo pleito.
Em resumo, a primeira jornada de protestos contra o governo de Abelardo de la Espriella evidencia um país em tensão, onde demandas sociais, direitos humanos e questões de segurança se entrelaçam. O futuro das manifestações dependerá da capacidade das partes envolvidas de dialogar, respeitar os direitos fundamentais e encontrar soluções que atendam às necessidades da população.








