Lula busca uma virada inédita contra Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2024, marcadas para outubro, e pretende inverter a tendência de alternância de poder que tem se consolidado em grande parte das democracias americanas. O presidente, que já enfrentou a impossibilidade de reeleição em 2022, agora aposta em uma estratégia que pode mudar o histórico recente do continente.
Contexto da alternância de poder nas Américas
Nas últimas dezessete eleições presidenciais realizadas em países das Américas onde a reeleição é permitida, apenas seis resultaram em incumbentes ou sucessores do mesmo partido, representando 35% dos casos. Os demais 65% foram marcados por mudanças de governo, refletindo um ciclo de renovação que tem se intensificado nas últimas décadas.
Entre os países que mantiveram o governo, destacam‑se o Paraguai, México e Canadá, onde os mandatários conseguiram vencer a disputa e garantir continuidade administrativa. Por outro lado, a Argentina, os Estados Unidos, o Uruguai, o Chile e a Colômbia registraram alternância, com novos líderes assumindo o cargo.
Quando se restringe a nações que permitem a reeleição, o quadro muda levemente, mas ainda aponta para a predominância da mudança. Sete disputas foram analisadas, e apenas três resultaram em reeleição – República Dominicana, Equador e Canadá – totalizando 43% de continuidade. Os outros quatro casos – Brasil, Argentina, Estados Unidos e Honduras – terminaram com a derrota dos incumbentes.
- Brasil: alternância (Lula vs. Bolsonaro)
- Argentina: alternância (Milei vs. oposição)
- Estados Unidos: alternância (Trump vs. candidato rival)
- Honduras: alternância
- Canadá: continuidade
O professor Amâncio Jorge de Oliveira, da USP, interpreta esse cenário como uma combinação de duas forças: um impulso natural de renovação e uma guinada à direita, sobretudo na América Latina. Segundo ele, a influência dos Estados Unidos ao adotar políticas conservadoras tem repercutido nas escolhas eleitorais de países vizinhos.
Desafios fiscais e queda de popularidade
Os índices de aprovação dos governos incumbentes têm caído de forma acentuada. Nos Estados Unidos, Donald Trump registra cerca de 30% de aprovação e 66% de desaprovação. Na Argentina, Javier Milei apresenta 38% de aprovação e 58% de desaprovação, números que refletem descontentamento popular.
Outros líderes, como José Antonio Kast no Chile e Keiko Fujimori no Peru, também enfrentam aprovações próximas de 30% em meio a crises econômicas profundas. A relação entre políticas fiscais rígidas e a perda de apoio popular é um ponto central nas análises do professor Amâncio.
Ele destaca que muitos desses países sofrem com desarranjos fiscais graves, déficits estruturais e necessidade de ajustes que muitas vezes implicam cortes de direitos trabalhistas. A Argentina, por exemplo, vive um desequilíbrio fiscal que tem gerado instabilidade econômica e social.
Essas pressões fiscais são frequentemente acompanhadas por governos de direita que prometem controle de gastos e reformas estruturais. No entanto, a velocidade das mudanças pode gerar resistência e acelerar a perda de apoio popular, criando um ciclo de instabilidade política.
O papel das redes sociais na disputa Brasil 2024
As redes sociais se tornaram um fator decisivo tanto para a ascensão de candidaturas alternativas quanto para o declínio de governos recém‑eleitos. O professor Amâncio ressalta que a internet potencializa mudanças bruscas na opinião pública, tornando-a mais volátil que a opinião das elites.
Campanhas digitais podem mobilizar eleitores rapidamente, mas também podem espalhar desinformação e gerar polarização. No caso de Lula e Flávio Bolsonaro, ambas as campanhas utilizam intensamente plataformas como Twitter, Instagram e TikTok para alcançar diferentes segmentos da população.
Essa dinâmica cria um ambiente em que a popularidade pode oscilar de forma mais abrupta, influenciando diretamente os resultados eleitorais. A rapidez com que uma narrativa se propaga pode determinar a vitória ou a derrota de um candidato nos momentos finais da campanha.
Além disso, a presença de influenciadores digitais e grupos organizados nas redes tem amplificado vozes que antes eram marginalizadas, permitindo que movimentos de oposição ganhem visibilidade nacional em poucos dias.
Para o candidato do PT, a estratégia inclui a combinação de conteúdo institucional com mensagens de mobilização nas redes, buscando reconquistar eleitores desencantados e reforçar a base tradicional. Já a campanha de Flávio Bolsonaro aposta em narrativas de combate à corrupção e de defesa de valores conservadores, explorando o descontentamento com a classe política tradicional.
O resultado desse embate digital ainda está em formação, mas a tendência indica que a capacidade de adaptação às novas formas de comunicação será crucial para determinar o vencedor do segundo turno.
Em síntese, a disputa presidencial de 2024 no Brasil reflete um cenário mais amplo de alternância de poder nas Américas, onde fatores econômicos, fiscais e a revolução das redes sociais convergem para moldar o futuro político do continente.








