Na abertura do debate geral da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, realizada em 22 de setembro de 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva alertou que a democracia brasileira está novamente sob ameaça por causa de ingerências externas. O discurso, feito no plenário da ONU em Nova Iorque, destacou a necessidade de respeito à soberania nacional e ao direito dos povos de decidirem seu futuro.
Ingerência externa e o risco à democracia
Lula enfatizou que o Brasil não aceita ser tratado como objeto de influência de qualquer potência. Segundo o presidente, “voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais”, referência direta às tentativas de manipulação que cercam o pleito nacional.
Ele reforçou que a democracia está em xeque quando forças externas tentam interferir nas escolhas populares. O mandatário afirmou que a soberania é um princípio inegociável e que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.
Ao citar a situação da Venezuela, Lula enviou um recado claro aos Estados Unidos, que recentemente depuseram o presidente Nicolás Maduro e assinaram acordos de exploração petrolífera. O presidente brasileiro declarou que o povo venezuelano deve definir seu próprio destino, sem pressões externas.
O discurso também abordou a crise no Haiti, apontando que a comunidade internacional tem sido indiferente diante do colapso humanitário. Lula alertou que a falta de ação pode gerar instabilidade regional que afeta todos os países do continente.
Segurança nacional e cooperação internacional
Lula destacou que o Brasil não pretende terceirizar a responsabilidade de proteger suas fronteiras. Em resposta à classificação dos grupos criminosos PCC e CV como organizações terroristas pelos Estados Unidos, o presidente classificou a medida como um “desaforo”.
Ele argumentou que a solução não está em porta-aviões patrulhando águas brasileiras, mas em cooperação efetiva para bloquear o fluxo de armas e dinheiro que alimenta o crime organizado. Essa proposta foi entregue pessoalmente ao presidente americano.
Para ilustrar a estratégia de combate ao crime, Lula enumerou os principais pilares da cooperação:
- Intensificação da inteligência compartilhada entre agências;
- Bloqueio de rotas de tráfico de armas e drogas;
- Rastreamento de recursos financeiros ilícitos;
- Fortalecimento das forças de segurança nas fronteiras.
O presidente ainda ressaltou que o Brasil não aceitará que “inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular”. A soberania, segundo ele, continua sendo a base da política externa brasileira.
Posicionamento sobre crises na América Latina e no Oriente Médio
Lula abordou a situação da Nicarágua, condenando a prática de impedir a oposição de disputar eleições livres. Ele afirmou que a solução para os problemas daquele país passa pelo respeito ao direito de escolha dos cidadãos.
No caso de Cuba, o presidente brasileiro denunciou o embargo econômico e o cerco energético impostos pelos Estados Unidos, chamando‑os de “punição coletiva” que afeta cerca de 10 milhões de pessoas.
Sobre o conflito entre Israel e Palestina, Lula lamentou o genocídio praticado em Gaza, destacando que gera trauma em gerações de palestinos. Ele também apontou que civis israelenses sofrem as consequências do radicalismo e dos atos terroristas do Hamas.
Ao final do discurso, Lula reiterou que a democracia brasileira pertence aos brasileiros e que o país seguirá firme como nação soberana, capaz de conduzir sua política externa de forma independente e baseada no multilateralismo.
Após a fala de Lula, o próximo orador foi o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que também ocupa a presidência do país anfitrião da Assembleia. Embora não haja reunião bilateral oficial prevista, analistas apontam que o encontro pode gerar conversas informais nos bastidores, como ocorreu no ano anterior.
Lula ainda reforçou, em entrevista à CNN, que não concorda com a forma como Trump governa os Estados Unidos nem com suas tentativas de interferir em outros países. “Ele tem o direito de governar a sua nação, mas não de governar outras”, disse o presidente brasileiro.
O mandatário comparou o estilo de liderança de Trump a um imperador que acredita ser o mais forte e rico, exigindo obediência dos demais. Essa crítica reflete a postura de Lula de defender a igualdade entre as nações e o respeito ao direito internacional.
Em agosto, Lula e Trump conversaram por telefone por cerca de uma hora. Na ocasião, o presidente brasileiro destacou a necessidade de diálogo, mas manteve firme a posição de que tarifas americanas impostas ao Brasil são injustas e baseadas em argumentos que ele considera falhos, como desmatamento e propriedade intelectual.
O discurso de Lula na ONU, portanto, reforça a estratégia de política externa que prioriza a defesa da soberania, a cooperação regional e a condenação de intervenções unilaterais. Essa postura deve influenciar as negociações comerciais e diplomáticas nos próximos meses, especialmente diante das tensões comerciais e ambientais que afetam a relação Brasil‑Estados Unidos.








