Lula declarou, na 81ª Assembleia Geral da ONU em Nova York, que o Brasil não delegará a terceiros a proteção de suas fronteiras contra o crime organizado. O discurso foi feito em 22 de setembro de 2026, durante o debate de abertura. A mensagem reforça a soberania nacional e a necessidade de cooperação internacional.
Desafios do crime organizado transnacional
As facções criminosas brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), têm expandido suas operações para além das fronteiras do país. Elas atuam em rotas de tráfico de drogas, armas e na lavagem de dinheiro em diversos continentes.
Esse alcance global exige respostas que vão além da atuação isolada de cada Estado. Quando os fluxos ilícitos atravessam fronteiras, a eficácia das políticas internas diminui se não houver troca de informações entre as nações.
Além do tráfico, as organizações criminosas investem em tecnologia para ocultar receitas e dificultar a rastreabilidade. O uso de criptomoedas, empresas de fachada e contas offshore complica ainda mais o combate.
O presidente ressaltou que a falta de coordenação histórica permitiu que o crime prosperasse. Agora, o Brasil busca mudar esse cenário por meio de acordos bilaterais e multilaterais.
Cooperação internacional e a posição do Brasil
Lula destacou a importância de parcerias estratégicas, inclusive com os Estados Unidos, para interromper o fluxo de recursos que alimenta as facções. O presidente citou acordos recentes com países vizinhos que facilitam a troca de inteligência.
Ele também enfatizou que o Brasil não aceita que o crime seja tratado como terrorismo, como tem sido sugerido por alguns atores externos. A diferença está na motivação: o crime organizado busca lucro, enquanto o terrorismo tem fins políticos ou ideológicos.
Para ilustrar a nova postura, Lula apresentou quatro pilares de cooperação:
- Compartilhamento de dados de inteligência em tempo real;
- Operações conjuntas de fiscalização nas fronteiras marítimas e terrestres;
- Assistência jurídica mútua para extradição de suspeitos;
- Capacitação de agentes de segurança em técnicas de investigação financeira.
Essas medidas visam criar um bloco de respostas coordenadas, reduzindo a vulnerabilidade de cada nação ao crime transnacional.
A ONU, como foro global, oferece o cenário ideal para discutir essas estratégias. O tema da 81ª Assembleia, “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação”, serve de pano de fundo para reforçar a necessidade de alianças sólidas.
Propostas de segurança interna e a resposta ao EUA
No âmbito interno, o presidente defendeu a criação de um Ministério da Segurança Pública, que centralizaria políticas de combate ao crime organizado. A proposta inclui a ampliação das competências da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal.
Além disso, a PEC da Segurança, atualmente em tramitação no Congresso, propõe maior integração entre a União, estados e municípios. A medida visa melhorar a coordenação de ações operacionais e de inteligência.
Entre as ações previstas, destacam‑se:
- Reforço de postos de controle nas fronteiras estratégicas;
- Instalação de centros de monitoramento de tráfego de drogas e armas;
- Implementação de sistemas de rastreamento financeiro para identificar fluxos suspeitos;
- Desenvolvimento de programas de prevenção nas comunidades vulneráveis.
Lula também abordou a crítica dos Estados Unidos, que classificam o PCC e o CV como organizações terroristas estrangeiras. O governo brasileiro contestou essa classificação, argumentando que o enquadramento legal brasileiro define terrorismo de forma diferente.
A Lei Antiterrorismo nacional exige motivação política, religiosa ou ideológica para caracterizar o ato como terror. Como as facções visam lucro, o Brasil prefere combatê‑las como crime organizado.
Essa divergência tem gerado debates diplomáticos intensos, mas também abre espaço para negociações sobre como alinhar estratégias sem comprometer a soberania nacional. Lula ressaltou que o Brasil está aberto ao diálogo, desde que respeite a legislação interna.
Por fim, o presidente enfatizou que a luta contra o crime organizado não pode ser delegada a terceiros. O Brasil está preparado para assumir sua responsabilidade, ao mesmo tempo em que busca apoio internacional para tornar a ação mais eficaz.
O discurso de Lula na ONU reforça a mensagem de que a segurança pública é um compromisso compartilhado, que exige ação coordenada, investimento em tecnologia e vontade política de todos os países envolvidos.








