Na manhã da quinta‑feira, 29 de setembro, o jornalista Paulo Figueiredo, aliado da família Bolsonaro, admitiu nas redes sociais que o uso da inteligência artificial foi a causa de falhas em uma carta divulgada por Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos. O documento, que chegou ao público na quarta‑feira, 28, continha a autodeclaração de Flávio como “presidente eleito” e apresentava um brasão antigo com a grafia “Brasil” escrita com Z.
O contexto da carta e a reação nas redes
A carta original foi publicada nas contas oficiais de Flávio Bolsonaro logo após sua chegada a Washington, onde o político participou de encontros com apoiadores da diáspora brasileira. Em poucos minutos, a mensagem viralizou, gerando debates acalorados entre apoiadores, opositores e observadores internacionais.
Nas primeiras horas, usuários do Twitter (agora X) e do Telegram apontaram a incongruência do brasão e questionaram a legitimidade da frase “presidente eleito do Brasil”. A imprensa nacional reproduziu o conteúdo, ampliando a exposição do erro.
Em resposta, Flávio editou a publicação, substituindo a autodeclaração por “a voz e a liderança da nossa nação”. A mudança, porém, não apagou as dúvidas sobre quem havia autorizado o texto e quais mecanismos de revisão foram empregados.
A explicação de Paulo Figueiredo e o papel da inteligência artificial
Figueiredo, em postagem no X, detalhou que o documento passou por múltiplas versões, todas geradas com o auxílio do ChatGPT. Segundo ele, o ex‑presidente Jair Bolsonaro teria solicitado que a IA inserisse o brasão da República, mas o algoritmo escolheu um modelo histórico, onde o nome do país era escrito com Z.
Ele enumerou os principais equívocos da seguinte forma:
- Escolha do brasão antigo, gerada automaticamente pelo ChatGPT;
- Inclusão de uma versão anterior do texto que mantinha a frase “presidente eleito”;
- Falha na revisão humana antes da publicação nas redes oficiais.
Figueiredo ressaltou que a produção intelectual contou com a contribuição de mais de uma pessoa, o que acabou confundindo a cadeia de aprovação. Ele afirmou ainda que a IA, ao combinar trechos de versões distintas, acabou criando um híbrido que não refletia a intenção final da equipe.
Para justificar a substituição de “presidente eleito” por “líder”, o jornalista explicou que o termo “líder” tem conotação jurídica mais precisa e carrega um valor moral que, segundo ele, “traduz o sentido desejado por Flávio”. Essa escolha, segundo Figueiredo, foi feita para evitar acusações de usurpação de mandato.
Ao final da explicação, o jornalista eximiu-se de responsabilidade direta, alegando que recebeu a versão considerada final e, após aprovação, a divulgou em seu próprio X. Quando os erros foram detectados, a equipe tentou corrigir rapidamente, mas a correção chegou tarde demais para conter o dano reputacional.
Consequências políticas e repercussões do equívoco
O incidente gerou um novo ciclo de críticas ao uso indiscriminado de ferramentas de IA em comunicações oficiais. Analistas de comunicação apontam que a falta de revisão humana pode comprometer a credibilidade de figuras públicas, especialmente em períodos sensíveis como eleições.
Especialistas em direito eleitoral ressaltaram que a autodeclaração de “presidente eleito” pode ser interpretada como tentativa de incitar confusão eleitoral, ainda que a intenção tenha sido corrigida. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ainda não se pronunciou oficialmente sobre o caso.
Nas redes, aliados de Flávio Bolsonaro defenderam a estratégia de comunicação, argumentando que a mensagem original foi alvo de manipulação por opositores. Já críticos afirmaram que o episódio evidencia uma postura irresponsável ao confiar plenamente em algoritmos sem supervisão.
O episódio também reacendeu o debate sobre a regulação da inteligência artificial no Brasil. Projetos de lei que buscam estabelecer diretrizes de transparência e responsabilidade para o uso de IA em documentos oficiais ganharam nova visibilidade no Congresso.
Por fim, a carta corrigida foi repostada pelos perfis oficiais de Flávio Bolsonaro, acompanhada de um pedido de desculpas ao público e à comunidade internacional. A mensagem final enfatizou que a “liderança do movimento continuará sendo exercida” e que os erros foram corrigidos para evitar novos mal‑entendidos.








