Em 10 de maio de 2024, o governo japonês registrou um protesto formal junto à Organização das Nações Unidas, exigindo a correção de um novo mapa-múndi que representa as Ilhas Curilas como parte da Rússia. A demanda foi feita em Tóquio, por meio do porta‑voz Minoru Kihara, que alegou que a ilustração fere a posição oficial do Japão sobre a soberania do arquipélago.
Contexto histórico das Ilhas Curilas
As Ilhas Curilas, conhecidas no Japão como Territórios do Norte, são objeto de disputa entre Japão e Rússia desde o final da Segunda Guerra Mundial. Em 1945, as forças soviéticas ocuparam o arquipélago, expulsando a população japonesa e estabelecendo uma presença militar que persiste até hoje.
O tratado de paz que deveria encerrar o conflito nunca foi assinado, o que mantém viva a controvérsia sobre a legalidade da ocupação russa. O Japão considera as ilhas parte integrante de seu território, com base em acordos históricos e no direito internacional.
Ao longo das décadas, sucessivas negociações diplomáticas tentaram encontrar uma solução, mas sem sucesso definitivo. A questão ganhou nova visibilidade quando, em abril de 2024, o presidente Vladimir Putin realizou uma visita inédita ao arquipélago, intensificando as tensões regionais.
A proposta do mapa Equal Earth e a votação na ONU
Em 4 de maio de 2024, a Assembleia Geral da ONU aprovou a adoção de um modelo cartográfico chamado “Equal Earth”, desenvolvido pelo país africano Togo. O objetivo do novo mapa é corrigir distorções históricas geradas pela projeção de Mercator, que exagera áreas próximas aos polos e diminui regiões equatoriais.
O modelo Equal Earth oferece uma representação mais fiel dos tamanhos dos continentes, aproximando‑se da realidade física do planeta. Essa mudança foi vista como um passo importante para melhorar a compreensão geográfica global e reduzir vieses eurocêntricos.
No entanto, a versão disponibilizada no site oficial da ONU incluiu as Ilhas Curilas como território russo, gerando a reação imediata de Tohiro Kihara, que descreveu a situação como “contrária à posição oficial do governo japonês”.
- Votos favoráveis: 164
- Votos contrários: 1 (Estados Unidos)
- Abstenções: 6 (incluindo Ucrânia)
A Ucrânia justificou sua abstenção ao apontar que o mapa também representa a Crimeia fora das fronteiras ucranianas, outra região disputada com a Rússia. Essa coincidência ressaltou como questões territoriais sensíveis podem influenciar decisões técnicas.
Reação do Japão e implicações diplomáticas
Minoru Kihara, porta‑voz do governo, declarou que o protesto foi enviado ao responsável pelo site de mapas por meio de canais diplomáticos, exigindo a correção imediata da representação. Ele enfatizou que o Japão precisa impedir que interpretações equivocadas sobre seus territórios se espalhem na comunidade internacional.
O ministro das Relações Exteriores, Toshimitsu Motegi, reforçou a posição de que os Territórios do Norte são parte integrante do Japão, tanto historicamente quanto sob o direito internacional. Em comunicado oficial, o ministro condenou a visita de Putin e afirmou que o Japão protestará veementemente contra qualquer ação que legitime a ocupação russa.
Especialistas em relações internacionais apontam que a disputa cartográfica pode ter efeitos práticos, como influenciar a percepção pública e até decisões de investimento em regiões afetadas. Uma representação oficial em plataformas globais pode legitimar, ainda que de forma simbólica, reivindicações territoriais contestadas.
Além disso, a questão pode reverberar em outras arenas multilaterais, como negociações comerciais e acordos de segurança. Países que mantêm relações estratégicas com o Japão ou com a Rússia podem se ver pressionados a escolher lados ou a adotar uma postura neutra para evitar atritos diplomáticos.
Para o Japão, a correção do mapa não se resume a um detalhe gráfico; trata‑se de uma questão de soberania nacional e de preservação da integridade territorial. O governo planeja intensificar esforços diplomáticos, inclusive em fóruns regionais como a ASEAN e o G7, para garantir que a representação cartográfica reflita a posição oficial de Tóquio.
Enquanto isso, a comunidade cartográfica internacional acompanha o caso de perto, avaliando se o modelo Equal Earth será revisado para atender às demandas de países com disputas territoriais. A expectativa é que a ONU avalie a possibilidade de criar versões regionais do mapa que respeitem sensibilidades geopolíticas sem comprometer a precisão científica.








