Na segunda‑feira, 14 de outubro, o Ministério das Relações Exteriores do Irã afirmou que não tem participação nos recentes ataques realizados pelos rebeldes hutis contra a Arábia Saudita e as forças governamentais do Iêmen. A declaração foi feita em Bagdá, durante coletiva de imprensa com jornalistas internacionais. O comunicado surge após o grupo huti anunciar o lançamento de dezenas de mísseis balísticos e drones contra alvos militares no sul saudita.
Posicionamento oficial do Irã
Esmaeil Baqaei, porta‑voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, ressaltou que os hutis são “totalmente independentes” e tomam decisões com base em seus próprios interesses estratégicos. Segundo Baqaei, o Irã não interfere nos assuntos internos do Iêmen, nem financia diretamente as operações militares do grupo. A fala foi acompanhada do adiamento de uma reunião prevista com os países do Golfo para discutir a gestão do Estreito de Ormuz.
Ao responder a questionamentos sobre possíveis vínculos logísticos, Baqaei destacou que o Irã mantém apenas relações diplomáticas com o governo iemenita reconhecido pela comunidade internacional. Ele afirmou que qualquer apoio ao grupo huti seria “estritamente humanitário” e não militar. Essa postura oficial contrasta com relatos de analistas que apontam para um apoio clandestino de Teerã ao movimento.
Ataques dos hutis na Arábia Saudita
Na mesma manhã, o porta‑voz militar huti, Yahya Saree, informou que foram disparados “dezenas de mísseis balísticos e drones” contra a Base Aérea Rei Khalid, localizada em Khamis Mushait, a quinta maior cidade da Arábia Saudita. O alvo incluía hangares de aviões de combate, radares, pistas de pouso e depósitos de munições. Segundo o comunicado, a operação foi planejada como resposta aos recentes bombardeios sauditas sobre território iemenita.
A Defesa Civil saudita emitiu alertas de perigo em quatro cidades do sul, incluindo Abha, Jizan, Najran e Khamis Mushait. As autoridades mobilizaram equipes de emergência para avaliar danos e prestar socorro a civis afetados. Até o momento, não há confirmação oficial de vítimas mortais, mas o risco de colapso de infraestruturas críticas permanece alto.
Impactos humanitários e estratégicos
A escalada da violência ocorre poucos dias depois da captura da ilha de Perim, situada no estreito de Bab el‑Mandeb, ponto estratégico que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden. O controle da ilha permite ao grupo huti influenciar uma das principais rotas comerciais entre a Ásia e a Europa, aumentando sua importância geopolítica. A ONU relatou que mais de 2.000 refugiados cruzaram para o Djibuti desde a última quinta‑feira, em busca de segurança.
Além da ilha, os hutis também tomaram o porto de Mocha e reivindicam o controle da cidade de Hays, que conecta três províncias iemenitas. O acampamento Khalid ibn al‑Walid, a maior base militar da região, também está sob ameaça huti. Essas conquistas ampliam o domínio do grupo sobre a costa do Mar Vermelho, comprometendo a livre navegação de navios comerciais.
Os combates já deixaram um saldo de mais de 500 mortos, segundo a AFP, incluindo 216 soldados do governo iemenita, 278 combatentes hutis e 29 civis. O número de feridos ultrapassa mil, e hospitais locais enfrentam falta de suprimentos e pessoal médico.
Cenário regional e perspectivas de futuro
O conflito tem raízes que remontam a julho, quando os hutis permitiram que um avião iraniano pousasse no Iêmen, desafiando o controle saudita sobre o espaço aéreo. A resposta saudita foi um ataque ao aeroporto de Sanaa, intensificando a rivalidade entre Riad e Teerã. Desde então, a região tem vivenciado uma série de confrontos intermitentes, com uso crescente de drones e mísseis balísticos.
Na última semana, as forças sauditas lançaram ao menos 40 ataques aéreos contra alvos em Marib, Al Jawf, Taiz e Hodeida. O canal rebelde Almasirah registrou 32 bombardeios em um único dia, seguidos por mais dez ataques nas horas seguintes. Essa troca de tiros demonstra a capacidade de ambos os lados de projetar poder aéreo.
Especialistas alertam que a ausência de um cessar‑fogo efetivo pode levar a uma nova fase de guerra aberta, envolvendo não apenas as partes locais, mas também potências externas. O envolvimento direto dos Estados Unidos, da Arábia Saudita e de outros aliados ocidentais no apoio a Riad pode ampliar ainda mais a complexidade do conflito.
Enquanto isso, organizações humanitárias pedem um acesso imediato e seguro às áreas afetadas para atender às necessidades básicas da população. A ONU insiste na retomada de negociações multilaterais que incluam todos os atores regionais, a fim de evitar que a crise se transforme em uma guerra de proporções ainda maiores.
- Ilha de Perim – controle estratégico do Estreito de Bab el‑Mandeb.
- Porto de Mocha – ponto crucial para o comércio marítimo.
- Cidade de Hays – interseção de três províncias iemenitas.
- Base aérea Rei Khalid – alvo principal dos ataques huti.
Em síntese, a negação do Irã de envolvimento direto não diminui a suspeita de apoio logístico e ideológico ao grupo huti. A continuidade dos combates ameaça a estabilidade do Golfo, a segurança das rotas comerciais e a vida de milhares de civis. O futuro do conflito dependerá da capacidade das partes de encontrar um caminho diplomático que contemple o fim das hostilidades e a restauração da ordem na região.








