Um relatório da Polícia Federal, enviado ao Supremo Tribunal Federal, apontou que credenciais de uma servidora do Ministério Público Federal no Maranhão foram usadas ao menos cinco vezes por aliados do banqueiro Daniel Vorcaro. O fato ocorreu entre 2023 e 2024, com acessos realizados a documentos sigilosos que investigavam irregularidades na tentativa de compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB). A descoberta foi divulgada publicamente após o ministro André Mendonça retirar o sigilo dos documentos relacionados ao caso.
Contexto da investigação
A Polícia Federal iniciou a apuração em 2025, após receber denúncia de que informações sensíveis do MPF-MA estavam sendo acessadas de forma ilícita. O órgão recebeu o alerta de que a servidora Alina Franco Boueres de Araújo teria sido vítima de um ataque de phishing, técnica que consiste em enganar a vítima para que revele senhas e outros dados de acesso. A partir daí, uma investigação interna foi instaurada pelo MPF, que confirmou o uso indevido das credenciais.
O relatório enviado ao STF detalha que o primeiro acesso não autorizado ocorreu em 2023, realizado por Luiz Phillipi Mourão, identificado como chefe operacional do grupo de Vorcaro e conhecido pelo codinome “Sicário”. Mourão teria buscado informações sobre notícias-crimes publicadas pelo jornalista Vladimir Timmerman, que já havia mencionado o banqueiro em matérias investigativas. Esse acesso inicial abriu caminho para novos episódios de violação ao longo de 2024.
Como as credenciais foram comprometidas
O ataque de phishing foi orquestrado por meio de e‑mails falsos que simulavam comunicações internas do MPF, induzindo a servidora a inserir sua senha em um site fraudulento. Uma vez obtida a combinação de login e senha, os cúmplices de Vorcaro conseguiram entrar nos sistemas internos do Ministério Público, extraindo documentos classificados como sigilosos.
Os registros apontam que o login foi utilizado em março, junho e julho de 2024, totalizando cinco consultas distintas. Em uma das ocasiões, o grupo enviou seis documentos confidenciais em um único lote, demonstrando a escala e a organização da operação. A seguir, apresentamos os principais momentos identificados:
- Março de 2024 – primeira extração de dados após o ataque inicial.
- Junho de 2024 – segunda extração, focada em relatórios financeiros do Banco Master.
- Julho de 2024 – terceira extração, incluindo comunicações internas do MPF‑MA.
Apesar das evidências, o relatório enfatiza que o uso das credenciais não comprova, por si só, que a servidora tenha conhecimento ou participação voluntária no esquema. A PF ressalta que as extrações podem ter ocorrido “com ou sem participação consciente” dos titulares dos acessos, hipótese que ainda está sob investigação.
Repercussões e medidas adotadas
Assim que o MPF tomou conhecimento das violações, bloqueou imediatamente os acessos indevidos e revogou as credenciais comprometidas. Além disso, foram implementadas novas camadas de segurança, como autenticação de dois fatores e monitoramento reforçado de logs de acesso. Essas ações visam impedir novos episódios e restaurar a confiança nos sistemas internos do órgão.
O caso ganhou grande repercussão na mídia, principalmente após a decisão do ministro André Mendonça de tornar público o relatório. A medida foi solicitada pelo presidente da Corte, Luiz Edson Fachin, que considerou essencial a transparência diante da crise envolvendo as investigações do Banco Master. A divulgação trouxe à tona a vulnerabilidade dos sistemas judiciais frente a ataques cibernéticos sofisticados.
Especialistas em segurança da informação destacam que o phishing continua sendo a principal porta de entrada para invasões em instituições públicas. Eles recomendam treinamentos regulares para servidores, políticas rígidas de senha e a adoção de soluções avançadas de detecção de ameaças. O caso do MPF‑MA serve como alerta para outras instituições que manejam dados sensíveis.
Próximos desdobramentos
O Ministério Público Federal continua a investigar a origem exata do ataque e a identificar todos os envolvidos. A Polícia Federal, por sua vez, está analisando se há ligações entre o grupo de Vorcaro e outras investigações em curso, como a Operação Compliance Zero. O objetivo é mapear toda a rede de vazamento e responsabilizar os autores.
Enquanto isso, o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB) permanecem sob escrutínio, já que as irregularidades na tentativa de compra ainda não foram totalmente esclarecidas. O STF acompanha de perto o caso, garantindo que todas as provas sejam analisadas de forma imparcial.
Para o público, a situação reforça a importância de acompanhar as decisões judiciais e de exigir transparência nas investigações que envolvem grandes instituições financeiras. A expectativa é que, com a conclusão das apurações, sejam adotadas medidas ainda mais rígidas para proteger a integridade dos dados judiciais no Brasil.








