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Identificados oito desaparecidos da ditadura na Argentina: detalhes da descoberta em Córdoba

Na última sexta‑feira (23), a Justiça da província de Córdoba, na Argentina, anunciou a identificação de oito pessoas desaparecidas durante a ditadura militar. Os restos mortais foram encontrados em uma vala comum conhecida como Loma del Torito, local que ainda guarda marcas de violência e silêncio.

O local da descoberta e seu histórico

Loma del Torito é um terreno pertencente ao Exército argentino, situado próximo à antiga sede do centro clandestino de detenção e extermínio de La Perla, que funcionou até 1978. Esse espaço foi utilizado pelos militares para ocultar os corpos de milhares de vítimas.

Estudos de organizações de direitos humanos apontam que entre 2.200 e 2.500 pessoas foram torturadas e assassinadas ali, dentro do contexto da ditadura civil‑militar (1976‑1983). O número total de desaparecidos no país chegou a cerca de 30 mil, segundo estimativas internacionais.

O trabalho da Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF)

A EAAF, responsável pela análise forense de restos humanos, recuperou centenas de fragmentos ósseos espalhados pela vala. Cada fragmento foi catalogado, limado e submetido a exames de DNA para comparar com familiares que mantêm a esperança viva.

O processo incluiu a extração de material genético, a criação de perfis de DNA e o cruzamento desses perfis com bancos de dados de parentes que forneceram amostras de sangue, cabelo ou saliva. Essa metodologia avançada permitiu a identificação de vítimas mesmo quando os restos eram extremamente fragmentados.

O juiz Hugo Vaca Narvaja conduziu a divulgação dos resultados em uma coletiva emocionante, acompanhada pelos familiares que relataram as histórias de desaparecimento, resistência e memória.

As vítimas identificadas e seus relatos

Foram confirmados como vítimas quatro mulheres e quatro homens, cujas identidades foram reveladas ao público:

  • Néstor Acosta
  • Pascual Ludueña
  • Claudio Nardini
  • Cecilia Pessina de Ávila
  • Mónica Protti de Guillén
  • Mercedes del Valle Ramírez
  • María Luisa Salto
  • Juan Carlos Soulier

Graciela Pessina, irmã de Cecilia, descreveu a emoção ao ver o osso da mão da irmã, lembrando que “o osso fala”. Ela contou que Cecilia, sequestrada aos 28 anos, escrevia contos, participava de projetos estudantis e tocava Mozart antes de desaparecer.

Rosa Ludueña, sobrinha de Pascual, relembrou o momento em que um pequeno osso do pé do tio foi identificado, afirmando que “a marca deixada deve alcançar todos que ainda não compreendem a dimensão do que aconteceu”.

Sebastián Soulier, que tinha apenas cinco meses quando foi sequestrado junto aos pais, recebeu a notícia de que seu pai, Juan Carlos, foi identificado. Ele compartilhou a sensação de encerramento após cinquenta anos de busca, mas também ressaltou que ainda restam dois desaparecidos em sua família.

Perspectivas e próximos passos

A Justiça entende que os militares transferiram os restos de outros locais em 1979 para esconder provas antes da inspeção da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Essa prática evidencia a intenção de apagar rastros e dificultar a justiça.

A EAAF afirmou que continuará o trabalho de identificação até que todos os fragmentos sejam analisados e as famílias recebam respostas. O objetivo é transformar a dor da incerteza em conhecimento concreto, permitindo que a memória seja preservada.

Além do impacto emocional, a identificação dos oito desaparecidos reforça a importância da ciência forense como ferramenta de justiça transicional. Cada nome reconhecido representa um passo rumo à verdade, à reparação e à prevenção de novas violações.

O caso também destaca o papel da sociedade civil, que, por meio de organizações de direitos humanos e familiares, mantém viva a busca por respostas. A pressão popular foi decisiva para que as investigações prosseguissem, mesmo diante de obstáculos institucionais.

Com a continuação das investigações, espera‑se que novos nomes sejam revelados, trazendo alívio a outras famílias que aguardam há décadas por respostas. O processo demonstra que, embora o passado seja doloroso, a memória e a justiça podem avançar quando ciência, direito e solidariedade se unem.

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